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Quando entrar na pista de atletismo de São Carlos para defender seus títulos nas provas de 1500m e 5000m, na 53ª Intermed, Lucão o fará pela última vez.

Prestes a completar o 6º ano do curso, o fundista da Medicina-USP fecha seu ciclo no esporte universitário no próximo domingo, carregando junto de si uma trajetória de medalhas, grandes marcas e de amigos para a vida toda.

Conciliando treinos e faculdade

Dedicado, Lucas Dias concilia desde 2014, quando entrou na USP, os treinos e as aulas do curso de graduação da Medicina, que tem grade integral. Nos últimos dois anos, o atleta também passou a cumprir o internato (estágio obrigatório do curso) e não raramente encara plantões de 12 horas em hospitais.

Amigos do internato – Créditos: Arquivo Pessoal

Apesar da rotina puxada, Lucão arruma tempo para praticar o atletismo ao menos seis vezes por semana, entre treinos de tiro na pista, academia e rodagem — uma corrida de ritmo mais lento, mas extremamente importante para que corredores de distâncias longas adquiram resistência. 

Ele embarca para o interior paulista neste final de semana em busca de bons resultados individuais e do tetracampeonato em suas duas provas, que se somariam às duas pratas que conquistou em 2015.

Mas, mais do que isso, ele também quer alcançar uma vitória coletiva em sua última participação na Intermed, ainda que considere a disputa acirrada.

“A nossa equipe masculina teve alguns problemas com lesão. Mas mesmo com isso, esse foi um ano de muita dedicação por parte de nós, em que a gente competiu bastante e cresceu em questão de maturidade nas competições. A Intermed no masculino vai ser muito disputada”, afirma.

Prestes a fechar um capítulo de sua vida, o fundista da Medicina aproveita a semana pré-Intermed literalmente como se fosse a última. “Agora é época de já começar a bater a saudade, de aproveitar os últimos treinos. Acho que no dia estarei tranquilo e vou aproveitar bastante minha última Intermed, que me trouxe tantas lembranças. Vai ser um momento de lembrar muito de tudo isso e de me emocionar bastante”, conta o atleta.

Por que corrida?

Créditos: Arquivo Pessoal

Médico por influência do pai, que é cirurgião, o interesse de Lucão pela corrida surgiu por influência da mãe, educadora física.

Mineiro nascido em Juiz de Fora e criado desde os sete anos em Viçosa, no mesmo estado, ele começou a correr ainda garoto, com 7 anos, para acompanhar a mãe.

“Quando eu tinha 7, 8 anos, minha mãe às vezes me levava pra correr com ela e nas raras corridas de rua que tiveram na minha cidade eu cheguei a ir. Começou com a minha mãe me ensinando e fui incorporando pra mim, e passou a ser algo que eu gostava de fazer”, explica.

Aprovado na Fuvest no início de 2014, Lucão mudou-se para São Paulo ainda jovem, aos 17 anos, e só então descobriu a existência da atlética e do time de atletismo. Por uma coincidência, uma conterrânea e ex-colega de escola também estava em São Paulo cursando a Medicina-USP.  

Interessado pelas provas de meio fundo e fundo — disputas a partir de 800m de distância — desde o princípio, o mineiro juntou o útil ao agradável.

“Quando eu entrei tinha dois fundistas na equipe: um que era 6º ano e outro que era 3º ano, mas que no seguinte um ia formar e o outro ia pro intercâmbio. Eu já gostava desse tipo de prova, por causa da infância. Quando comecei a fazer os treinos de fundo mesmo, eu gostei. Por mais que as pessoas falem que o treino é longo, é sofrido, é uma coisa que até hoje sou apaixonado por fazer”, conta Lucão.

Último treino – Créditos: Arquivo Pessoal

Estreia nas competições

O mineiro estreou no atletismo ainda no início de seu ano de bixo, em 2014, no Bichusp, campeonato entre os calouros da USP. Além de também disputar a Calomed, tradicional competição entre os alunos de primeiro ano de medicina em São Paulo.

Mas mesmo com a participação nas disputas entre bixos, o primeiro ano de Lucão foi um pouco irregular no quesito frequência de treinos.

“Ao longo do ano de 2014 eu ia em alguns treinos, não ia em outros, era uma coisa inconstante, porque tinha muita coisa pra conhecer. Eu não era tão assíduo assim, tanto que as pessoas mais velhas da equipe achavam que eu não ia ficar, porque comparado com outros eu não era tão presente”, relembra.

E embora houvesse incerteza de seus colegas sobre a sua continuidade no esporte, ele estreou na Intermed ainda em 2014, como um dos titulares dos 5000m e como “extra” nos 1500m.

Sem grandes pretensões de título na época, Lucão iniciou sua trajetória no campeonato entre medicinas com as marcas de 4min58s na disputa do 1500m e com 20min21s na corrida de 5000m — foi a única vez em que não levou medalhas para casa.

Sem grandes lesões ao longo de seus seis anos de graduação — exceto por um princípio da famosa “canelite”, ainda no começo da trajetória —, as melhores marcas do atleta da medicina deram um enorme pulo.

Na FUPE do 1º semestre de 2019, Lucão concluiu os 1500m em 4min13s. Poucos meses depois, no Torneio Universitário da Baixada (Tubs), na Praia Grande, ele ficou muito próximo de alcançar a casa dos 15 minutos nos 5000m, terminando a prova em 16min01s.

Para além de sua própria evolução, o mineiro destaca também o significativo avanço da própria modalidade como um todo, que ganhou em número de competições e de participantes.

“Quando eu entrei a gente tinha bem menos competições para participar, e nos últimos anos a gente tá tendo muito mais. O que é bom pro pessoal mais novo que entra conseguir experimentar mais provas, evoluir mais no esporte e ficar mais animado com as competições. Cresceu bastante o número de pessoas, tem competições lotadas e isso é muito legal de ver”, afirma. 

Competições inesquecíveis e esquecíveis

Largada do 1500m na Copa USP 2019 – Créditos: Arquivo Pessoal

Ao longo de quase seis anos repletos de competições, Lucão coleciona, além de medalhas, momentos para relembrar durante toda a vida — e também momentos para esquecer.

InterUSP

Entre as disputas memoráveis, a primeira que ele destaca é a InterUSP desse ano, em que se sagrou campeão em suas duas provas.

“Eu não fiz as melhores marcas da minha vida, mas eu nunca tinha ganhado as duas provas, e esse ano eu não esperava ganhar. Tem muita gente boa, a gente sabe o nível da competição, e o programa horário diferente de qualquer outra competição”, explica.

Intermed 2017

Além do campeonato entre faculdades da USP disputado esse ano, ele também rememora a Intermed de 2017, em que a equipe masculina da Medicina USP voltou a se sagrar campeã.

“Essa Intermed é minha competição favorita até hoje. Era um título que fazia muito tempo que a gente não comemorava, foi muito especial, foi uma competição que muita gente pontuou, que a gente ganhou como grupo. Foi o ano que eu vi da minha equipe ter chegado mais forte, foi um dia inesquecível, que se Deus quiser e a gente merecer eu espero repetir esse ano”, afirma o atleta da medicina.

FUPE 2019

Entre as competições regulares, Lucão não titubea: o dia inesquecível é o da FUPE de 2019, em que fez sua melhor marca nos 1500m e garantiu medalha de bronze.

“A gente foi como seleção USP e competiu na série diamante [divisão da FUPE para atletas de maior nível técnico], foi um dia espetacular. E parando pra pensar, pelo nível da competição, é a principal medalha que eu tenho, competição de nível mais alto, foi um dia muito especial”, diz.

TUNA 2017

Competitivo, ele não tem muitas disputas entre as que prefere deixar no passado. Uma delas, por questões individuais, é a primeira etapa do TUNA de 2017.

“Em 2017 foi o ano em que a gente trocou de técnico, então eu ainda estava me adaptando e cheguei na competição e foi uma das piores pra mim de tempo, desde que eu tinha entrado”, relata. Mas algumas coisas acontecem para estimular a gente a melhorar. Com o tempo meus treinos com o Rodrigo foram melhorando muito, muita coisa mudou desde então”.

Inspiração

Depois da palavra “pista”, recorrentemente gritada por atletas que vêm em maior velocidade e percebem à frente alguém trotando ou caminhando, não é improvável que a expressão mais gritada na pista de atletismo da USP seja “Vamo, Lucão”.

Dita com frequência por colegas de Medicina-USP, não é raro ouvi-la da boca de adversários de outras faculdades, que acabaram por virar amigos do atleta mineiro, um dos mais queridos do atletismo universitário.

A despeito das inúmeras medalhas que conquistou ao longo dos anos, Lucão passa mais tempo enumerando colegas e equipes que admira e se inspira do que relatando as conquistas que teve.

Da cidade em que foi criado, Viçosa (MG), o futuro médico lista dois conterrâneos.

“Tem dois irmãos, Gilmar e Gilberto, que são fundistas profissionais e treinam numa pista que tem lá em Viçosa, e toda vez que eu vou pra lá eu treino nessa pista e encontro com eles. Os caras sempre super humildes, sempre conversaram comigo, sempre me ajudaram com as coisas e eu virei fã dos caras, era muito legal ver eles correndo, muito bonito”, conta Lucão.

Já no universitário, ele destaca as equipes masculina e feminina da Medicina Paulista, na Intermed de 2014, e a equipe masculina da Poli-USP, entre 2015 e 2016, além da atual equipe feminina da Medicina ABC.

Entre os atletas, ele enumera desde colegas de faculdade até adversários de outras equipes, mas destaca Marcelo Nakano e Vinícius Tornich, amigos que ajudaram a fundar o Fundusp.

FundUSP – Créditos: Arquivo Pessoal

Último desafio universitário

Nos últimos meses ainda como aluno de graduação da USP, o atleta tem um último grande desafio no esporte universitário:

Após boa participação na FUPE, etapa paulista dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs) no início de 2019, Lucão carimbou junto do amigo Vinícius Tornich, fundista da FFLCH-USP o passaporte para disputar a mais importante competição universitária do país, que ocorrerá de 12 a 15 de setembro, em Fortaleza (CE).

Perto de prestar a residência médica, em que pretende seguir a especialidade de medicina de emergência, o atleta admite, já meio saudoso, que o afastamento da rotina de treinos com a equipe está próxima de acabar.

“Ano que vem eu não pretendo continuar treinando com a equipe da medicina. Ao longo desses 6 anos já foi uma coisa que tomou bastante tempo meu, que eu sempre me dediquei muito. Mas se eu realmente começar a residência ano que vem, eu vou ter outros objetivos de vida pessoal e outras responsabilidades”, diz.

Atletismo na vida

Apesar do inevitável afastamento, Lucão já tem como certo que o atletismo seguirá como parte importante da sua vida.

“Mas obviamente que eu não vou abandonar a corrida. Eu pretendo continuar treinando, não sei por enquanto com quem, como eu vou me organizar, mas tenho a certeza que vou continuar. Eu sempre gostei bastante de corrida de rua, talvez ano que vem eu tenha uma prova principal de rua pro ano e essa é uma coisa que vai me estimular a treinar”, conta o futuro médico, que já correu duas meia maratonas e algumas disputas de 10 km. 

Lições da corrida

Cada vez mais próximo do fim do ciclo no atletismo universitário, o atleta acredita que um dos principais aprendizados que o esporte proporcionou em sua vida é a noção de que que é necessário lutar para conseguir atingir uma meta.

“As pessoas que gostam de atletismo como eu gosto, que vivem o esporte assim, percebem que com o tempo ele passa a ser meio que um estilo de vida, a forma como você encara várias outras coisas na sua vida. É um esporte que ensina pra você que sempre que se você quer alcançar um resultado, tem um objetivo bem definido, você vai ter que se esforçar bastante pra alcançar ele”, aponta.

Às vésperas de sua derradeira Intermed, Lucão faz questão de lembrar as pessoas que considera mais importante em sua trajetória vitoriosa.

“Eu poderia falar de muita gente, mas se fosse para destacar algumas eu destacaria meus pais, que sempre me apoiaram, sempre demonstraram interesse em tudo que eu fazia, sempre queriam me ajudar, mesmo que isso muitas vezes tenha me afastado deles”, conta. 

Além dos pais, ele também frisa a importância dos treinadores que teve ao longo de sua trajetória.

“Primeiro o Cleberson, que foi o cara que me viu correr primeiro, que durante os treinos me colocou para treinar o fundo, que fez eu evoluir nos três primeiros anos. E depois o Rodrigo, técnico atual, que desde que ele entrou eu percebo como que a nossa equipe aumentou, e como ele fez muita gente nova da equipe melhorar bastante”, diz.

técnico de atletismo e atleta
Lucão e o Rodrigo, atual técnico, na FUPE 2019 – Créditos: Arquivo Pessoal

O futuro médico também destaca a oportunidade de conhecer pessoas que jamais teria tido a chance se não tivesse mergulhado de cabeça no esporte ao longo de seis anos de dedicação.

“Nessa reta final eu fico muito feliz, muito agradecido pelas pessoas estiveram presente na minha vida durante essa época. Os próprios atletas do atletismo da Medicina, e também amigos de outras faculdades. São pessoas que em todo o treino estavam lá me incentivando, que em toda competição estavam lá torcendo por mim e que foram responsáveis por tudo que eu vivi nesses 6 anos. Por cada conquista que eu tive, por cada tempo que eu melhorei, cada sorriso que eu dei, essas pessoas estavam lá do meu lado pra poder compartilhar e fazer isso tudo ter valido a pena”, conclui.

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