Acho que todo mundo que já pisou em uma quadra, seja nos treinos da faculdade até em jogos nos longíquos Baetão e EDA – ou até mesmo nos saudosos Módulos (#voltahandebol) – já se depararam com esta dúvida: o que fazer?

Temos que lidar com esta questão durante todo o jogo. Fazemos escolhas o tempo inteiro, elegemos agir de um jeito ou de outro, agora ou depois. E, em vários momentos, nos vemos perdidxs querendo que qualquer boa alma nos responda: “O que eu faço?!”.

A resposta provavelmente não será simples, mas vai estar direcionada, muitas vezes, pelo modelo de jogo da sua equipe.

As prioridades devem ser as mesmas

Quem nunca esteva em quadra, dando contato em todo mundo, fazendo falta a cada segundo, segurando (controlando) x pivot? Só que, na hora que olhou para o lado, x sua(seu) colega de equipe tá lá nos 9m tentando roubar uma bola e abrindo um espaço gigantesco na defesa?

Ou, então, outro cenário possível. Você faz um esforço gigantesco para roubar a bola, quase consegue. Só que, quando sai aquele passe perfeito para a equipe roubar a bola e fazer um contra-ataque maravilhoso, a pessoa está dormindo com o pé na linha dos 6 metros.

O ponto em que quero chegar é: a equipe deve falar a mesma língua. Todxs devem ter o mesmo objetivo. E uma das coisas que pode facilitar isso é a organização das atenções por prioridades.

No primeiro caso acima, umx defensorx está claramente tentando impedir o ataque de progredir ao gol. Para isso, o atleta dá contatos, faz faltas e impede, ao máximo, o time adversário de jogar.

Na outra situação exemplificada, trata-se do caso inverso: alguém se esforçando muito para recuperar a posse, enquanto outra pessoa na defesa parece mais interessada em não deixar que a atacante chegue perto do gol.

Se, em ambos os casos, os interesses fossem os mesmos, a chance de êxito provavelmente seria maior.

Mas, quais devem ser as prioridades?

Aí é que está a questão. Estas prioridades não são universais. Cada equipe vai estabelecer as suas. Seguindo no exemplo da defesa, alguns times podem priorizar a posse da bola, para depois tentarem impedir o ataque de chegar próximo do gol. Uma outra equipe, em contrapartida, pode ter outras prioridades.

É a partir daí que se pode entender o handebol não apenas como um jogo feito com as mãos e pernas, mas também como um jogo de ideias!

Estes “padrões atitudinais” são alguns dos pontos que direcionam aquilo que vamos chamar de Modelo de Jogo. Mas não é só. Se as prioridades (e sua hierarquização) respondem a pergunta de “o que fazer?”, este modelo ainda deve tentar responder o “como fazer?”.

E não só durante a defesa, mas também em outras fases do jogo: a defesa posicionada, a transição ofensiva (também conhecido como “contra-ataque”), o ataque posicionado e a transição defensiva (apelidada de “retorno”).

Além “do que fazer”

Seguindo o exemplo da defesa, norteado pelo princípio de recuperação da posse de bola, nos perguntamos “como vamos fazer isso?”. Diversas respostas podem surgir daí, como por exemplo: “pressionar as opções de passe” ou “induzir passes para que possamos interceptá-los” ou até “obrigar passes longos, mais suscetíveis à interceptação”. Novamente, só o direcionamento da prioridade em querer roubar a bola não será suficiente, é necessário que estes “como?” também estejam claros para toda a equipe.

Isso tudo sem nem entrar na questão dos sistemas de jogo: defesas 5:1, 6:0, 4:2, ataques 3:3, 2:4, 4:3, etc (entenda a diferença entre sistemas de jogo e modelo de jogo aqui!). Isso tudo pode estar dentro do modelo de jogo, mas não o representam (quem nunca jogou contra um 6:0 que roubava um monte de bola, ou um 5:1 que só dava porrada?), mas isso fica para uma outra coluna…

Algumas questões sobre modelo de jogo

  1. Há um modelo ideal? Sim. Todos. O Modelo de Jogo é uma concepção abstrata, no plano das ideias e que, dentro deste plano, deve compor o ideal da equipe. Se a pergunta for analisada como “há um modelo melhor  que outro? Aí é a quadra que vai dizer (aqui uma discussão sobre diversas maneiras de se ganhar um jogo)
  2. Meu treinador não faz desse jeito. Ele está errado? Também não, isso porque todo mundo tem um modelo de jogo, uma maneira “ideal” de jogar, que norteiam nossas decisões, a questão é se temos ou não consciência sobre ele.
  3. E o modelo de jogo é a coisa mais importante no handebol? Nonono. Ele deve ser um “norte” para que sua equipe consiga jogar o jogo na maior sintonia possível. Mas, é sempre importante lembrar que cada jogo é imprevisível (e tem uma lógica!) e, quem melhor se adapta a isso (quem “joga o jogo”), é quem melhor joga. Todo mundo ter claro quais são as prioridades da equipe, falando a mesma língua, é claro que ajuda. Porém, não é a única coisa.