O treinador Dennis Decina explica mais sobre como funciona a defesa dentro do jogo de vôlei e por que o sistema defensivo é tão diferente das outras modalidades

Por Dennis Decina

Quem joga vôlei sabe que um das partes mais gostosas é ralar o joelho, dar o sangue para não deixar a bola cair dentro do seu território. E, de quebra, salvar o seu time naquela bola quase impossível.

Esse é o fundamento de defesa mais difícil dentro do jogo e também o mais importante no âmbito universitário. Palavra de quem é líbero e treinador de voleibol.

Diferença do vôlei

No voleibol, o sistema defensivo é chamado de processo de contra ataque. E assim como em outras modalidades de quadra (handebol, basquetebol e futsal), a defesa é caracterizada por um alvo.

Ou seja, sua equipe será organizada para proteger tal alvo, que em sua maioria está na vertical ou no alto.

Entretanto, no vôlei, há duas diferenças bem gritantes. O alvo que se deve proteger é o próprio chão, uma área bem maior comparada a outras modalidades. E a rede é um obstáculo natural de proteção à defesa.

Além disso, proteger uma área baixa na horizontal é jogar contra a própria gravidade, elevando a dificuldade dessa ação no jogo.

Importância da defesa

Não é à toa que equipes que estão sempre brigando por títulos, times fortes e bem estruturados têm, em sua maioria, uma defesa sólida e muito volume.

Ela faz muito diferença no jogo. E já ocorre durante a primeira ação da partida com o saque, que promove a organização defensiva da outra equipe.

Para isso, o time se organiza, se posiciona e prepara a defesa para conseguir contra atacar. E o saque tem papel fundamental.

Porque, justamente pelo fato da bola ir pro adversário, pressupõe-se que haverá a organização de um ataque.

Assim, um bom saque é aquele que tira opções da levantadora de deixar atacantes em boas condições ofensivas. E assim, facilita uma estratégia defensiva da sua equipe.

Ações de defesa no vôlei

Bloqueio

Conforme o ataque adversário vai se construindo, o bloqueio se prepara para ser a primeira ação de defesa. Literalmente formando uma barreira contra o ataque.

A sua função é não deixar a bola passar para o seu próprio lado. De forma a rebate-la ao adversário ou então amortecendo-a para sua defesa.

Outra função importante é proteger uma área determinada da quadra, deixando assim menos espaço para a defesa cobrir.

Tipos de bloqueio

Existem três tipos de bloqueio quanto à estruturação de atletas. Ele pode ser simples, duplo ou até triplo.

No voleibol universitário, utiliza-se o bloqueio simples e duplo com mais frequência do que o bloqueio triplo.

Em relação às marcações mais comuns do bloqueio existem a aberta ou a fechada, sendo a primeira a preferência das atacantes de extremidade.

Isso porque a bola faz uma trajetória maior para chegar na atacante, ao passo que a fechada dá preferência às atacantes do meio, consideradas bolas mais rápidas.

Outra classificação do bloqueio pode ser em relação ao seu propósito: ofensivo ou defensivo.

No ofensivo, acontece quando a jogadora eleva bem o braço e tenta fechar o maior ângulo possível da atacante.

Enquanto o bloqueio defensivo, as jogadoras não sobem tanto para disputar com o ataque. Assim, só tentam amortecer a bola para sua defesa.

Como funciona

O bloqueio sempre protege uma zona da quadra, sendo a paralela ou a diagonal do ataque. E a velocidade da bola também interfere no momento que a atleta vai realizar o salto.

Com bolas rápidas o ajuste deve ser muito veloz, saltando quase ao mesmo tempo da atacante.

Já em bolas de extremidade, a bloqueadora espera a atacante saltar para ajustar a marcação e nas bolas de fundo deve atrasar ainda mais esse tempo.

Dessa forma, a treinadora vai adaptar a formação do seu bloqueio em relação ao ataque adversário.

E, por mais que o bloqueio pareça uma gesto simples, é difícil de realizá-lo com eficiência. Pois é necessário ter uma noção espaço-temporal boa para que seja aplicado no lugar e instante exato do ataque.

Defesa no vôlei

Essa é a ação do jogo para proteger sua quadra junto do bloqueio, tentando evitar assim o ponto adversário.

Ela envolve um posicionamento prévio de qualidade e leitura das ações ofensivas para tentar antecipação. Afinal, do momento que o ataque é realizado, não há tempo para pensar ou deslocar.

Quando analisamos no universitário, a oscilação técnica e a força imposta pelas atacantes varia bastante no jogo. Por isso, é um fundamento que ocorre com mais frequência em comparação ao alto rendimento.

Importância da postura corporal

Quando se prepara para realizar a defesa, além da sincronia com o bloqueio e boa ocupação do espaço se posicionando adequadamente, a postura de expectativa é essencial para tentar proteger sua zona. É fundamental:

  • Estar com os pés mais afastados, próximo da largura dos ombros (base);
  • Deixar os joelhos levemente flexionados para diminuir o centro de gravidade do corpo;
  • Inclinar o tronco para frente para transferir o peso do calcanhar para o antepé;
  • Os braços a frente do corpo posicionados a meia altura, para recuperar bolas altas e baixas;
  • E claramente estar sempre olhando para a bola.

A base depende da zona da quadra que é executada a defesa. Por isso, a ideia é que o atleta defensor inicie o movimento de frente para o atacante e termine para sua referência em quadra.

Anatomicamente, é aconselhado que o ajuste seja feito com uma perna a frente do corpo protegendo a linha mais próxima, voltando-se para o centro.

Tipos de defesa

As defesas têm variações táticas e técnicas muito particulares em relação aos treinadores e podem até ter a mesma nomenclatura.

Porém, são adaptadas onde cada atleta irá cumprir seu papel defensivo dentro da proposta da comissão técnica.

Basicamente as defesas jogam no esquema tático quadrado ou semicírculo. Sendo o quadrado aquele com duas jogadoras na paralela e duas na diagonal e no semicírculo, uma na paralela e três na diagonal. Tudo em conjunto com a marcação do bloqueio.

Essa é a movimentação de defesa em seu posicionamento final, quando é organizado o contra ataque.

Entretanto, antes do levantamento adversário ser realizado, existe o posicionamento inicial, onde é marcada a largada de segunda da levantadora, tentando pegar a defesa desprevenida.  Essa largada pode ser curta ou longa, variando o esquema tático inicial 3x2x1 ou 3x1x2.

Existe também a cobertura de bloqueio. É o momento que a defesa acompanha a construção do seu ataque, preparada na possibilidade da bola não passar pro outro lado da rede, rebatendo no bloqueio adversário.

Essa recuperação requer um tempo de reação apuradíssimo, devido à velocidade e ao curto espaço para a recuperação da bola.

Costuma-se ver no universitário coberturas 2×3 ou 3×2, sendo que, no primeiro os defensores ficam mais próximo do bloqueio, e no segundo, os defensores protegem a bola mais alongada.

Essas são algumas dicas e informações sobre a organização da defesa no voleibol, chamado de processo de contra ataque.

Lembrando que cada time e cada treinadora deverão ter opções e opiniões divergentes. Porque o esporte é justamente uma combinação de variáveis não exatas.

E o vôlei, sendo uma modalidade complexa, ainda possui mais possibilidades e embasamentos não mencionados.

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