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Por Gustavo Bezerra, Presidente da AAAOC em 2012.

Em 2012, a Pinheiros ia para a sua quarta InterMED, após o retorno à competição. Nos anos anteriores, havíamos conquistado o mais tradicional Inter de São Paulo com largas vantagens.

Fomos campeões antes mesmo das finais dos esportes de quadra, com um dia de antecedência. Em 2011, lembro que na sexta disputamos mais de 10 semifinais, conquistando quase metade dos ouros possíveis dentre as modalidades.

A aura e o espírito que detínhamos eram de campeões absolutos. Lembro-me de ouvir nas reuniões entre as diretorias das diferentes atléticas da LEAMESP (a liga responsável por organizar a competição) que era impossível perdermos, que éramos imbatíveis. Eu era presidente da AAAOC nesse ano e não acreditava nisso.

Os diferenciais da InterMED

A InterMED, diferentemente de outras competições universitárias, tem na mentalidade o seu maior fator para vencer. Cansei de ver times piores tecnicamente vencendo jogos e campeonatos por estarem mais fortes mentalmente do que o adversário.

A torcida, quando aliada e na mesma atmosfera da equipe na quadra, tende a criar um ambiente onde os times se equivalem, mesmo quando a disparidade técnica deveria ser preponderante.

Alguns fatores valem ser ressaltados sobre a InterMED: trata-se de uma competição longa, com duração de uma semana. Além disso, a rivalidade acirrada entre as faculdades de Medicina, chegando muitas vezes a ser violenta, esquenta os jogos do campeonato.

Por fim, a própria intensidade com que os futuros médicos se dedicam ao esporte. Estes são todos ingredientes a mais nessa mistura que vai compor o clima e a atmosfera do campeonato.

InterMED 2012: quem é a favorita?

Ao olhar o chaveamento daquele ano, e prever nosso desempenho ao longo da semana de competição, previ um ano muito mais difícil do que os anteriores.

O sexto ano que havia formado tinha muita força em diversas modalidades, algumas equipes enfraqueceram-se e a tabela não parecia favorável.

Apesar disso, o clima dentro da atlética era de otimismo, afinal eram 3 anos amassando os adversários, seria mais um atropelo aquele ano…

Chegada a semana do feriado de 7 de setembro,  os primeiros dias foram complicados. Perdemos várias modalidades logo nos primeiro jogos. Ao longo do feriado prolongado, poucos times se mantiveram na competição. Muitos atletas, inclusive, retornando a São Paulo, decepcionados com seu próprio desempenho.

Nossos maiores rivais, a Escola Paulista de Medicina, estavam bem e disputando mais modalidades na metade da semana da InterMED. inclusive gritando um irritante “O Campeão Voltou” quando venciam.

“Mas não era fácil?”

Pela primeira vez desde nosso retorno aos jogos, a InterMED era em uma cidade diferente de Santa Rita do Passa Quatro. No caso, em Assis – bem mais distante da capital – e isso contribuía para uma sensação de estranhamento que rondava o alojamento.

Lembro que vários calouros estavam sem entender. “A Intermed não era fácil?”, ouvi isso algumas vezes. Minha Diretoria estava tensa, alguns imaginando e flertando com a idéia de uma derrota, até ai inédita para quem estava na Pinheiros.

Os veteranos cobravam por algum tipo de atitude que mudasse os rumos da competição. Nossa faculdade fazia 100 anos de história em 2012 e a tradição de campeã absoluta parecia mais pesar para nós do que para os adversários em alguns momentos.

Houve um jogo marcante e ilustrativo desse cenário. O nosso vôlei feminino, campeão do ano anterior, perdeu um set após abrir mais de 12 pontos de vantagem contra um time bem mais fraco.

Só com uma torcida completamente insana, que apoiou o time a cada ponto, foi que viramos a partida. Tão insana que terminou no último ponto rasgando a rede de proteção da quadra e despencando alguns metros, caindo em cima dos juízes.

Por sorte, ninguém se machucou seriamente. Algo não estava condizente com nossa aura de imbatíveis.

Apesar desse contexto difícil, e para mim, previsível, eu me mantinha confiante. Os nossos times que haviam ficado eram muito fortes e favoritos. Acreditava que, com a aproximação das finais, nossa mentalidade prevaleceria.

Na sexta-feira, conseguimos uma série de vitórias. Finalmente, a competição se equilibrou novamente e chegamos à penúltima noite em um confronto direto no salão feminino contra a Paulista.

O dia das decisões

Quem vencesse chegaria com uma ligeira vantagem no último dia. Em um ginásio abarrotado, em um daqueles jogos emocionantes com as duas torcidas gritando sem parar, acabamos derrotados.

Não houve espaço para lamentar, em outro ginásio, a semi-final do vôlei feminino estava no meio e estávamos sendo derrotados. Foi uma correria desenfreada, entre ônibus e carros da torcida desesperados para chegar a tempo do quarto set.

A nossa torcida chegou, cantou, gritou, torceu e viu o time empatar a partida e virar no tie break, já no quinto set. Já rouco e extenuado de tanto torcer, olhei para a equipe e pressentindo o que viria no dia a seguir, pensei que essa equipe estava mentalmente muito forte.

Depois de passar por altos e baixos, tinham encontrado a mentalidade que estava faltando. Mais que isso, ela seria o principal determinante do que viria a acontecer.

“O campeão tá aqui!”

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Comemoração da AAAOC na InterMED 2012

Sábado, último dia. Tínhamos 4 finais, os nossos rivais índios, 5. Um confronto direto entre nós, o vôlei feminino ao meio dia. Pela manhã, ganhamos o beisebol e o handebol feminino, e a Paulista perdera o futebol de campo.

Tal sequência nos dava o direito de conquistar o geral no vôlei feminino. Chegamos ao ginásio com ânimo, força e unidos em torno da idéia de conquistarmos o Tetra em cima dos principais rivais.

Foi uma das poucas vezes em que vi a torcida adversária maior que a nossa em uma InterMED. A possibilidade de uma conquista do geral em cima da “Porcada”, que não vinha desde 2005, servira como um incentivo para que muitos velhos e formados viessem assistir às finais.

O ginásio estava tomado pelos índios. O jogo começou complicado, a Paulista abriu uma diferença e a manteve, levando o primeiro Set. Nosso time não se desesperou, manteve a calma, e jogando com a cabeça certa foi virando o jogo.

Aos poucos, a pressão de manter-se campeão passou para o outro lado, virando pressão para vencer o campeão. Nossa mentalidade foi reconquistada, ali naquela quadra daquele ginásio na longe cidade de Assis. A torcida adversária foi minguando, a nossa…crescendo.

Quando o quarto set se iniciou, e o placar marcava 2×1 para nós, já não havia quem duvidasse mais. A Pinheiros tinha retomado a sua postura e não perderia. Vencemos e entramos na quadra cantando “O Campeão tá aqui”, abrimos nossa bandeira, o saudoso “Cocozão”.

O resto do dia foi uma grande festa, ainda ganhamos mais uma final. O alojamento, que comicamente fora um prostíbulo no passado, virou uma grande balada e viu algumas coisas bem condizentes com a história pregressa do lugar.

Mais um título: postura, cabeça e força mental

No final, no saldo do último dia, ganhamos todas as finais. Olhando agora, 6 anos depois, acho que isso é o que significa a mentalidade que fez da Pinheiros a maior campeã da história de todas as competições que participa ou participou. Talvez seja isso que tenha faltado nos últimos anos para reconquistar o título da InterMED.

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Gustavo com o troféu do título geral da InterMED de 2012

Essa soma de postura, cabeça, e força mental para vencer quando em meio à adversidade. Preparo, material humano e estrutura não faltam. No pouco que frequento ainda o espaço da AAAOC, sinto alguma vontade que clama pelo retorno à glória.

Algo pairando na atmosfera daquele clube, um desconforto por não estar onde está acostumado. Algum tipo de pulsão lá no meio daquele Caveirão com as dezenas de InterMEDs conquistadas escritas na parede.

As glórias do passado devem ser algum tipo de combustível para o presente. Se posso passar algo às novas gerações, acho que é essa idéia de mentalidade que vi tão enraizada na atlética.

A vitória é a única opção

Esse é o conceito fundamental do esporte, pelo menos o que aprendi na Pinheiros. Competir para vencer. Não sei do futuro, mas no presente a única coisa que importa em uma quadra é o quanto você está disposto para vencer.

Não é questão de acreditar que se é invencível, é jogar como se fosse invencível. Tem uma frase de um técnico norte americano do passado que diz sobre isso: “Winning is not everything, it’s the only thing”.

Desejo uma boa competição a todos.

Créditos imagens: Acervo Pessoal Gustavo Bezerra

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