O fim da universidade não significa que o esporte também acabou para os formados. Eles continuam sendo atletas e, acredite, em diversas modalidades.

 

Por Patricia Beloni

Acabou a faculdade. E agora? Você vira um sedentário ou troca os treinos pela academia porque não pode mais jogar como universitário? Nem um nem outro. Saiba que o amor pelo esporte é tão grande que times de diversas modalidades surgiram para contemplar a galera formada.

São equipes basquete, futebol, futsal, handebol e vôlei, masculinos e femininos. Algumas treinando com frequência, mas todos participando de vários campeonatos. Seja competições especiais para quem já foi universitário ou ainda para o esporte amador mesmo.

Alguns são de uma faculdade só, como é o caso do Cásper Masters (handebol feminino) e o Formados da USP (futebol de campo masculino). Mas a maioria costuma ser um catadão de várias universidades por aí e até de galera fora do ambiente universitários, como amigos de infância ou conhecidos.

Uns bancam tudo do próprio bolso. Já outros possuem até patrocínio, como o Re-formadas (handebol feminino), e o Prodetech Wings (basquete feminino). Tem comissão técnica, uniforme personalizado, material e redes sociais. É, tá pensando que o esporte universitário morre depois da faculdade?

Como surgem os times de formados?

A história é quase a mesma para todos. Diploma na mão e fim dos treinos. Mas a vontade de continuar jogando não termina. A solução? Montar um time com toda essa galera que não pode jogar mais jogar como aluno.

Alguns nasceram mais com o intuito de continuar praticando esportes e principalmente para participar de campeonatos. Outros cresceram e ficaram um pouco mais estruturados, com a ajuda de técnicos.

O time de handebol feminino, Re-formadas, foi um desses. Junto com a atleta Luciana Mattar, o técnico Orlando Martes deu a ideia de um time aberto pra outras formadas. “Ele abraçou a causa comigo com a ideia de continuar jogando e ter uma alternativa de lazer depois de graduada”, conta.

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As Re-formadas

Com o tempo, mais meninas foram entrando e a equipe foi tomando corpo. “A gente queria que o negócio ficasse sério e organizado. Que tivesse uma frequência de treino e campeonatos competitivos. Então a gente começou a buscar que o time ficasse um pouco mais sólido”, revela Luciana. Hoje elas são até patrocinadas pela empresa Metais Suzano.

E o nome “Re-formadas”, inclusive, é um trocadilho de meninas formadas e reformadas. A ideia veio de uma intercambista portuguesa da FAU, a Lara Ferreira. No português de portugal, “reformadas” significa aposentada. Lara continua no Brasil, fazendo parte do time e treinando forte!

Diferenças do esporte universitário

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O tesão em jogar e competir continua o mesmo. Mesmo para aqueles times que não treinam e só competem. Para alguns, nem tem aquele comprometimento que o universitário exigia. Mas para outros, ainda é coisa séria. O que muda mesmo é fator humano. As pessoas são outras depois da faculdade.

“Mudou porque amadurecemos. O basquete virou um hobbie, mas um hobbie que é prioridade. Principalmente porque temos o patrocínio da Prodetech – empresa de segurança e serviços -, diretoria e CNPJ, o que requer uma responsabilidade burocrática também. Logo, quem vem pro time vem com um certo comprometimento que não tínhamos na faculdade”, conta Mayra Sartorato, do Prodetech Wings.

E não tem essa de perder a diversão e o prazer porque tem um certa carga de obrigação. “Todas as meninas que entram falam como é legal jogar nele, porque é leve, porque você se diverte, e a ao mesmo tempo é competitivo”, conta Luciana, do Re-formadas. “Então, às vezes ele agrega coisas que o universitário não conseguia agregar”, afirma.  

E apesar de continuar conhecendo pessoas, isso também se torna diferente. “Tive contato com pessoas que jamais tive durante o esporte universitário, que dificilmente eu conheceria, com profissões muito diversas”, revela Luciana.

Mais do que uma válvula de escape, o esporte se torna uma fonte de amizades. “É onde a gente conhece pessoas que não fariam parte da nossa ‘bolha’ não fosse pelo esporte. Temos contato com pontos de vista diferentes, com opiniões que não tínhamos”, aponta Mayra.

Dificuldades do esporte depois da faculdade

Se enquanto estamos na graduação já é difícil conciliar as tarefas do dia a dia, imagina depois de formados. A vida ganha outra configuração. Trabalho integral, filhos, família, casa, um milhão de coisas pra fazer. Como arrumar tempo então para continuar treinando?

“Obviamente os que têm família,  ou estão em um momento profissional muito intenso não conseguem dar a mesma atenção sempre”, aponta Feijó. Mas isso não impede de conseguir um dia na rotina para fazer o que tanto se ama.

E estar na mesma fase da vida ajuda muito. “São pessoas que tão no mesmo momento da vida, trabalhando, tentando se estabelecer profissionalmente, mas que querem ir jogar, que se esforçam, e que às vezes vai ter um compromisso e tudo bem”, lembra Luciana.

Algumas modalidades, como o futsal feminino, sofre em achar integrantes. “Sempre foi muito difícil achar meninas que não só gostassem, mas que pudessem se comprometer formalmente com o time”, conta Suzana Vilhena, do time Canela de Mina.

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O time de futsal feminino Canela de Mina

Apesar de estar crescendo, ainda tem pouca gente. Isso sem falar no preconceito que a mulher sofre jogando bola. “Mulher que joga bola é homem, não é vaidosa, não gosta de homem. Então ter um time de futsal feminino é uma forma de resistência”, aponta ela.

Outro fator é encontrar lugar para treinar. Não é fácil encontrar quadra, com valor razoável, e que estejal disponível. “Não tem mais aquela estrututura, aquele respaldo da faculdade”, lembra Suzana.

Isso sem contar a idade. Pensa que é fácil jogar contra times bem mais novos, os jovens que correm bem mais? E ainda tem as lesões, que chegam com mais facilidade e possuem uma recuperação mais demorada.

Agora, tem outra coisa que também atrapalha: o dinheiro. A maioria não tem patrocínio e precisa tirar do próprio bolso.

Amizade no esporte

É praticamente unânime o que une os atletas universitários depois da faculdade. Além do amor pelo esporte, vem a valorização dos amigos e de fazer parte de um grupo. “Depois de formados, ainda tínhamos muita vontade de jogar e acima de tudo de estar juntos”, contou Renato Saikali, do time de futebol de campo Master Cásper.

Depois de 14 anos de história, a equipe continua firme e é, sem dúvida, pelos laços entre os atletas. “A ligação de amizade sempre foi muito forte. O esporte faz isso, e o futebol muito mais”, aponta. Saikali e os amigos não treinam sempre, mas participam de campeonatos e sempre se reúnem na casa de um amigo pós jogo.

“Temos um “sede social” informal, a “casa do norte do seu gabin” . Depois dos jogos vamos pra lá, porque a resenha pós jogo não pode morrer jamais!”, brinca. Quando o time completou 10 anos, fizeram até uma viagem para a Argentina para comemorar. E é claro que também bateram uma bolinha.

Time de formados x Pelada 

Mas e então, por que não ficar só com aquela pelada aos finais de semana e feriados? Precisa mesmo montar um time? Sim, precisa. Isso porque jogar de vez em quando não exige nenhum, repetindo, nenhum tipo de comprometimento.

E a ideia do time de formados é jogar de maneira competitiva, estabelecer vínculos com novas pessoas. “Isso é muito mais interessante que bater uma pelada”, explica Léo Linde Feijó, do time de futebol de campo, Formados da USP.

Segundo ele, o estímulo tanto mental quanto físico é muito gratificante. “Continua a se aprender muito mesmo fora da faculdade. A ter disciplina, a conviver com vitórias e derrotas, que são ainda um reflexo da nossa sociedade”.

Esporte para todos

Salvo os times que ainda reservam vagas apenas para a mesma faculdade, não existe uma peneira. “Queremos que o esporte seja para todas – desde as que têm mais técnica, até àquelas que querem aprender”, explica Mayra.

E a ideia é mesmo promover uma inclusão do esporte fora do meio universitário. “Pegar meninas que gostam do esporte, que tiveram dificuldade depois que se formaram, que estão dispostas a sair tarde do trabalho, e que querem ter uma troca, uma amizade, querer fazer parte do grupo”, aponta Luciana.

Foi o que a equipe de futebol de campo Time Lado B acabou percebendo com o tempo. “O time foi criado para que os jogadores do time da faculdade que não jogavam tanto pudessem ter mais chances de entrar em campo”, explicou Bruno Faria, do Time Lado B, de futebol de campo. No começo eram apenas formados da FFLCH, mas hoje conta com agregados e até graduados de outras faculdades.

 

Com quem a BEAT conversou? Veja a lista de times (mas existem muitos mais, ein?):

 

Basquete feminino

Prodetech Wings

 

Handebol Feminino

Cásper Master

Re-formadas

Formadas da EEFE

 

Handebol Masculino

EEFE USP

 

Futebol de Campo

Time Lado B

Formados USP

Master Cásper

 

Futsal Feminino

Canela de Mina

 

Vôlei Feminino

Formadas da USP

 

Vôlei Masculino

Filhos do Julio

 

Para refletir sobre o esporte:

Por que é tão difícil prever quem vai ser campeão?| Revista BEAT
Sob o comando delas: questões de gênero no esporte| Revista BEAT
Falta de investimento afeta o esporte universitário no Brasil| Revista BEAT