Por Gabriel de Campos e Nelson Niero Neto | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]M[/dropcap]uito se discute sobre treinadores, pouco se sabe deles. Qualquer amante de esporte, algum dia, já reclamou, menosprezou e até se colocou no lugar do técnico do seu time de coração. Ingenuidade.  Ser treinador não se limita ao papel de comandante de um grupo, ou apenas escolher reservas e titulares. Sua função vai muito além: toda a construção de uma equipe, a definição de um padrão técnico e tático, e a busca por um entrosamento que lhe renda conquistas passam por sua mão. Uma busca incansável pela perfeição.

Na trajetória até a excelência, todo o trabalho para alcançá-la tem como base o treinamento. É ele quem aperfeiçoará a equipe, fazendo com que ela atue na sua melhor forma possível, reproduzindo o que técnico enxerga e quer de seus atletas. Diversas são as formas de preparar um elenco, pois cada treinador tem sua própria maneira de trabalhar, suas preferências e ideologias, mas certas práticas já são conhecidas entre eles, e suscitam discussões. Nesse cenário, um típico exemplo se dá na diferença entre dois métodos de treino: analítico e global.

O treinador universitário Victor Passeri, responsável pelo time feminino do Direito PUC e auxiliar da Seleção USP masculina, ambos de futsal, em entrevista cedida, explicou no que consiste e o benefício de cada método: “O primeiro baseia-se na prática repetida de certa atividade, como um exercício de arremate ao gol, o que possibilitará uma maior chance de ajuste e correção do gesto motor. Já o segundo caracteriza-se por uma maior especificidade e proximidade da complexidade do jogo, com um alto número de decisões durante a prática”.

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Victor Passeri, no canto direito, com seu time de futsal feminino da PUC. Fonte: Arquivo pessoal

Os dois métodos, até certo ponto, são antagonistas, e a ambos podem ser feitas ressalvas. Enquanto o analítico se mostra pouco específico à realidade do jogo, sem exigir do atleta uma rápida tomada de decisão e buscando aprimorar apenas a prática de certo movimento, o global pode não evoluir certos fundamentos que apresentem falhas, já que não apela a uma exaustiva repetição motora.

Questionado quanto a sua preferência acerca do tema, Victor respondeu: “Ambos devem ser utilizados no esporte universitário, entretanto, deve-se dosar a quantidade de cada um nos treinos. […] Hoje, utilizo 90% do treino global e 10% de analítico em uma equipe de futsal feminino. Uso o analítico como aquecimento ou complemento, nunca como parte principal do treino. Creio que o método global é mais completo para a realidade universitária”.

Em um time universitário, por vezes, podem chegar ao time atletas sem um completo domínio dos fundamentos do esporte, debilitando certas práticas de um treinamento mais abrangente, porém, justamente por atingir mais aspectos do jogo, trabalhar situações coletivas tanto de defesa quanto de ataque, o global, simbolizado pelo o que se chama de “jogo reduzido”, parece ser o preferido dos treinadores. É ele quem aprimorará questões táticas e estimulará uma melhor leitura do jogo, justamente por simular situações reais que os jogadores podem encontrar em competições.

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Foto de Ricardo Garcia Kuba

Soma-se a isso o pouco tempo de treinamento de um time universitário, se comparado a equipes profissionais, o que acaba limitando ações analíticas e de repetições de fundamentos. Em seis meses o time tem de apresentar, minimamente, entrosamento e competência tática para competições universitárias.

Para tentar driblar a questão do pouco tempo e a necessidade de um resultado rápido e satisfatório, Victor dá a dica: “No início do semestre, em que não há jogos e os atletas estão retornando, pode-se utilizar um pouco de trabalho analítico. O segredo é controlar o volume e a intensidade dos trabalhos globais, para evitar lesões”. E ele ainda completa: “A partir do início dos jogos, creio que o analítico deve se tornar apenas um complemento do treino”.

A preferência de cada treinador pelo método analítico ou global varia de acordo com o esporte, o momento do time, o objetivo almejado e o nível técnico de seus jogadores. Não existe uma fórmula ou receita fixa, o que aumenta a responsabilidade do comandante na formação de sua equipe. O certo é que cada estilo tem as suas vantagens e momentos propícios para serem trabalhados. No esporte universitário, o treinamento global é o mais requisitado e popular, mas, em algumas situações, principalmente quando o atleta tem algum ponto fraco que pode ser melhorado, o método analítico pode ajudar mais. A decisão fica nas mãos do técnico, um personagem que, mesmo sendo por tantas vezes questionado e desacreditado, é crucial no desenvolvimento de uma equipe, e assim, pode fazer dela um grupo vencedor.

 

 

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