Recentes casos de estupro na USP derrubam o mito da “bolha universitária”

Por Cesar Isoldi | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]O[/dropcap] Núcleo de Mulheres de Relações Internacionais (RI) da USP promoveu um evento, na última quarta (22), visando debater como o machismo está presente na vida universitária e, em especial, nos jogos. O debate foi realizado por três mulheres: Luíza Ribeiro, integrante do coletivo feminista Geni da Faculdade de Medicina (FMUSP) da Universidade, Heloísa Buarque de Almeida, professora do Departamento de Antropologia e ex-coordenadora do USP Diversidade, e Beatriz Lopez Roldão, diretora geral de esportes da Associação Atlética Acadêmica da Matemática (AAAMAT), da USP, e integrante do DiversIME.

Nos últimos meses, inúmeras denúncias de estupros dentro da Cidade Universitária inundaram os noticiários e a imagem que muitos tinham da USP como um espaço livre de opressões começou a ser questionada. “Nós não somos uma bolha e essa questão é bastante urgente”, disse Luíza, que ainda criticou o modo como o coletivo é tratado pelos diretores. “Segundo eles, a gente existe apenas para sujar o nome da faculdade”, completou.

A professora Heloísa concordou, comentando que deixou a coordenação do USP Diversidade pois não via nos gestores uma real vontade para realizar aquilo que era proposto. Ela ressalta que, apesar das críticas, tentou fazer o máximo possível. “Eles diziam que esse não era o objetivo do projeto, mas aí já estava feito”, afirma. A professora, que vem realizando estudos na área, alertou para o fato de que o ambiente onde mais ocorrem estupros não é a “rua escura”, mas sim aqueles com pessoas conhecidas da vítima.

Por esse motivo, as festas são ocasiões em que isso aconteceria mais facilmente – tanto quando o estupro é feito após um crime, quanto depois de dopar uma garota ou quando a questão do consentimento está envolvida, pois existe a ideia de que o garoto deve “aproveitar as oportunidades”. Os chamados “trotes e festas tradicionais” das faculdades também foram criticados por Heloísa. “O trote é feito para as pessoas obedecerem sem pensar e se calar; isso é uma tradição militar”, afirma.

Nos jogos universitários, essa temática também é muito presente. A ideia de se ter muitos dias consecutivos de festas maximiza as possibilidade desse tipo de violência acontecer. Beatriz, do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade, também levanta a questão do machismo quando entoado por cantos da bateria. “Eu via que a bateria nos representava, mas cantava músicas que não nos representava”, critica, completando que, desde que passou a fazer parte da gestão da atlética, há um esforço para retirar algumas músicas. Ela ressalta que torcer não é crime, porém não se deve naturalizar esse comportamento como “coisa de torcida”.

Beatriz também defende a participação dos coletivos nas comissões desses jogos, a fim de intervir quando necessário nos cortes de músicas – tanto da bateria quanto das festas – e tentar ajudar na formação de um ambiente mais acolhedor. Algo que Luíza, da FMUSP, diz não existir por lá. “Eu não me sinto confortável lá enquanto mulher”, lamenta.

Para todas as integrantes da mesa, eventos assim – para debater o machismo e o estupro – deveriam ser mais comuns, pois a universidade precisa abrir os olhos para essa questão. “Esses temas são tabu, e a gente precisa começar a falar deles”, defendeu a professora Heloísa.

 

 

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