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Substância pode se tornar aliada no desempenho esportivo

Por Carolina Oliveira | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]Q[/dropcap]uando se pensa em energéticos, logo vêm à mente as bebidas consumidas em festas ou para manter a atenção em longas noites de estudo, visando afastar o sono e aumentar a concentração. Além dos famosos energéticos em lata, o efeito estimulante também pode ser encontrado em alimentos naturais, como chá-verde, café, guaraná, cacau e noz de cola. O que todos eles têm em comum? A presença da cafeína. E estudos vêm mostrando que esse famoso composto não só tem o poder de prover animação nas noitadas ou nas jornadas de trabalho, como também é capaz de potencializar o rendimento nas atividades físicas.

Segundo Marcos Cavalcante, pesquisador do Ladesp (Laboratório de Determinantes Energéticos de Desempenho Esportivo), os mecanismos de ação da cafeína estão relacionados, sobretudo, ao aumento do desempenho em atividades prolongadas, com mais de 30 minutos. “Os pesquisadores viram que após a ingestão de cafeína, o tempo até exaustão é aumentado, e o indivíduo resiste mais ao exercício numa intensidade constante”, afirma. Isso porque a cafeína é capaz de reduzir a percepção de dor e de esforço durante o exercício, fazendo com que o atleta possa aumentar a intensidade do movimento sem se sentir mais cansado.

Cavalcante explica que a intervenção da cafeína no corpo se dá através dos receptores de adenosina, composto que, em grandes concentrações – o que ocorre durante a atividade física -, está relacionado a um estado de fadiga mental. Uma vez que a cafeína tem afinidade com os receptores de adenosina, ela se liga a eles, impedindo a adenosina de fazê-lo. Dessa forma, os receptores não conseguem enviar ao cérebro a informação sobre a alta disponibilidade de adenosina, e assim, o mesmo não percebe o cansaço. Embora a ação se dê sobretudo no Sistema Nervoso Central, a adenosina também está presente em vários tecidos, como rins, coração e tecido adiposo, tornando seu efeito bem amplo.

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Molécula de cafeína. Substância está presente em alimentos como café, chocolate, refrigerante, e em mais de 60 diferentes tipos de plantas. Créditos: Info Escola

Além do efeito sobre atividades longas, Cavalcante aponta que alguns estudos mais recentes também têm mostrado ação da cafeína sobre exercícios de curta duração. Nesse caso, a substância atuaria aumentando a contribuição do sistema energético anaeróbico (que ao contrário do aeróbio, não depende de oxigênio para gerar energia). Esse sistema produz energia de forma mais rápida e é utilizado pelo corpo em movimentos rápidos e intensos. Portanto, o aumento de sua atuação na produção energética, proporcionado pela cafeína, levaria a um maior desempenho em exercícios de curta duração. Contudo, o pesquisador do Ladesp ressalta que tais evidências são recentes. “O conhecimento sobre a relação entre ingestão de cafeína e esse tipo de exercício ainda é um pouco menor quando comparado às evidências sobre os exercícios de longa duração”, diz.

A questão é que, para que esses resultados ocorram, não basta uma simples xícara de café ou de chá. De acordo com Cavalcante, a dosagem ideal seria entre 3 e 6mg de cafeína para cada kg de massa que a pessoa tenha. Como não há grande diferença entre as quantidades de 3mg e 6mg no que tange ao efeito, para um indivíduo de 70kg, por exemplo, já basta uma dose em torno de 210mg. Para se ter uma ideia, uma lata de RedBull com 250ml contém 80mg de cafeína, ao passo que a mesma quantidade de café pode conter entre 100mg e 200mg da substância. Ou seja, são necessários mais de cinco copinhos de café e três latas de RedBull para se atingir a quantidade de cafeína necessária.

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Além disso, a maioria dos estudos mostra que a substância deve ser ingerida cerca de uma hora antes da prática do exercício, pois é quando seu pico ocorre na corrente sanguínea. Após a ingestão, a cafeína permanece presente no organismo de quatro a seis horas, o que pode variar dependendo de cada indivíduo. Contudo, energéticos artificiais, tais quais o Redbull ou alguns tipos de suplemento, ainda contêm outros compostos misturados a cafeína, como taurina e açúcares, o que pode alterar seu efeito sob o organismo.

Como tudo na vida, porém, o excesso de cafeína traz alguns problemas. Muita cafeína pode causar insônia, taquicardia, aumento da pressão arterial e, sobretudo, vício, de modo que a pessoa se torna dependente da substância em doses cada vez mais altas. No caso dos atletas, é preciso ter em mente que, depois que o efeito da cafeína passa, volta o estresse muscular causado pelo exercício intenso. De qualquer forma, a dosagem máxima recomendada para evitar tais contra-indicações ainda é bastante alta: um adulto saudável pode consumir até 400mg diárias, de acordo com a recomendações da FDA (US Food and Drug Administration, órgão do governo estadunidense que regula alimentos e medicação), o que fica acima do necessário para que se obtenha efeitos no desempenho esportivo. Ou seja, é possível usar essa ferramenta para aumentar o rendimento, mas sem que isso prejudique a saúde como um todo.

 

Foto de capa: Revista Galileu

 

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