Por Vitor Andrade | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]O[/dropcap] consumo de álcool é algo que vem dos primórdios da humanidade: a análise química de cêramicas do período neolítico encontradas na China e no Oriente Médio comprova que há aproximadamente 7 mil anos a humanidade já fazia bebidas fermentadas. O álcool chegou a ser recomendado aos doentes (conta-se no Velho Testamento que ele era dado aos moribundos), e na Idade Média a cerveja era uma bebida comum para todas as idades e classes. E hoje em dia é uma droga socialmente aceita e legalizada, e inclusive consumida em peso, principalmente no mundo universitário: 4 em cada 5 estudantes bebe álcool regularmente, o que inclui muitos atletas de variados esportes.

No mundo do esporte profissional, o álcool também está presente, e muitos atletas e ex-atletas famosos não negavam uma bebida. Exemplos famosos são Garrincha, George Best, Sócrates, Allan Iverson e Joe Namath. O álcool teve participação importante na causa de suas mortes, mas será que o álcool também não os ajudou a ter uma atitude mais relaxada e criativa? Fabio Capello, treinador da seleção inglesa, após ver os seus jogadores nervosos empatando duas partidas na fase de grupos, surpreendeu-os liberando o consumo de cerveja antes da terceira partida. A Inglaterra ganhou de 1×0 e avançou para as oitavas.

Existe um caso mais extremo: Brian Clough, treinador do ex-celébre Nottingham Forrest em 1979, e um conhecido beberrão, simplesmente obrigou os jogadores a relaxarem com uma quantidade grandiosa de álcool, antes da importantíssima final da Copa da Inglaterra. “Tinha gente que mal conseguia ficar em pé na hora de ir pra cama. Mas Clough insistiu. Archie Gemmill queria ir dormir mais cedo. Ele não deixou.” O método do técnico funcionou e o Nottingham saiu campeão com um 3-2 em cima do Southampton.

“Em 1969 eu larguei as mulheres e o álcool. Foram os piores 20 minutos da minha vida”,declarou George Best. Já em 2005, no leito de morte, disse: “Não morra como eu morri”
“Em 1969 eu larguei as mulheres e o álcool. Foram os piores 20 minutos da minha vida”,declarou George Best. Já em 2005, no leito de morte, disse: “Não morra como eu morri”

O famoso etanol, o mesmo das aulas de química e dos combustíveis, é o verdadeiro nome do álcool presente nas bebidas e também uma droga que possui propriedades psicoativas. Cerca de 5% do consumido sai como vapor pela saliva, suor e outros fluídos, e os 95% restantes são metabolizados. Este etanol chega rapidamente no estômago e 20% do volume é absorvido para a corrente sanguínea lá mesmo, em questão de segundos. Isso explica por quê comer antes de beber desacelera os seus efeitos, já que a comida serve de barreira entre o etanol e as paredes do órgão. Os outros 80% vão ser absorvidos no intestino delgado.

Chegando ao cérebro por meio da corrente sanguínea, ele afeta a absorção de serotonina (neurotransmissor que passa uma mensagem de desinibição, euforia e bom humor), deixa os neurônios mais “preguiçosos” e o usuário passa a ser menos perceptivo do mundo ao redor. Quanto ao sistema nervoso central, duas das áreas mais comumente atingidas são: sistema límbico (responsável pelas emoções) e o cerebelo, chefe da coordenação motora. 

 

Além disso, o etanol causa um aumento na produção de ácido gástrico, acarretando em enjoo, mal estar e consequentemente, vômito. Causa também reabsorção de água nos rins, resultando em mais urina eliminada – levando com ela minerais importantes como o magnésio e o potássio, o que por sua vez afeta o sistema cardíaco e muscular, além da produção de ATP, o que explica a sonolência pós consumo.

Tomar umas antes do jogo ou mesmo um dia antes da competição te deixa bem desidratado, algo crítico ao esporte. Combinado com o suor causado pelo exercício, a prática torna-se mais difícil e, após algum tempo, ocorre sensações de desmaio (o que vai acontecer caso continue correndo). Mesmo se o seu esporte for anaeróbico (levantamento de peso, corrida curta, salto) os efeitos do álcool ainda vão te perseguir. A força, equilíbrio, tempo de reação e atividade dos músculos de rápida contração são afetados gravemente.

Além disso, o consumo do álcool em grandes quantidades aumenta o potencial para a temida arritmia cardíaca, o que piora em consumidores irregulares. O etanol desregula o sono e a secreção dos hormônios do crescimento e testosterona, essenciais para a hipertrofia muscular, assim como o aumento da força e resistência. Para piorar a situação, o álcool possui cerca de 7 cal/g, quase o mesmo do óleo, e também diminui a quantidade de calorias “queimadas” durante o exercício. Consumir bebidas álcoolicas durante um período de recuperação de algum tipo de contusão também vai desacelerar a cicatrização e reabilitação de qualquer parte do corpo.

Mas se o senhor leitor persiste em beber umas antes da competição, a quantidade-limite para deixar sua performance intacta é de uma dose, acompanhada de uma quantidade razoável de comida. Mas não é melhor beber depois da competição para comemorar a vitória? Bem, mesmo se você não ganhar, depois de uma boa hidratação com água, acompanhada de uma a duas horas de espera, é possível beber sem sofrer (tantas) consequências. E, novamente: beba consciente!

 

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