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Como trabalhar estratégias tendo em vista debilidades técnicas

Por Guilherme Caetano | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]H[/dropcap]á quem não consiga enxergar grandes diferenças entre o futsal e o futebol de campo, já que o último é conhecido mais profundamente. Afinal, ambos são bastantes familiares ao brasileiro amante do esporte com os pés. A ordem durante a partida obedece leis quase idênticas. Há uma meta, o gol, com seu protetor, o goleiro. Há cobranças laterais e de escanteio. Braços e mãos são as únicas partes do corpo proibidas para a condução da bola etc. Quase todas as outras regras são equivalentes para as duas modalidades. Será, porém, que elas são tão iguais assim?

Futsal odonto

É consenso entre a maioria dos treinadores de futsal que não, não são tão parecidas. Toda a disposição da quadra do futebol de salão e sua proporção, exigindo uma meta mais compacta e menor quantidade de jogadores, interfere demais no conjunto de habilidades e estratégias necessárias para o esporte. Como a bola fica o tempo todo próxima, é preciso maior movimentação e atenção durante as jogadas. Não é possível, por exemplo, como acontece no futebol, parar para descansar enquanto a jogada acontece do outro lado do campo, a dezenas de metros dali. A intensidade das partidas acaba se tornando maior, e a substituição ilimitada dos jogadores se faz necessária.

Lucas Rodrigues, familiar à modalidade desde sua infância, destaca várias particularidades. Ele atualmente é técnico das equipes universitárias de futsal Engenharia Mackenzie masculina, FAU/USP feminina e Direito PUC masculina. Além disso, é professor no Tênis Clube Paulista, onde trabalha com alunos dos seis aos 17 anos. “Fisicamente, as duas modalidades exigem demandas fisiológicas um pouco diferentes. No futsal, a tomada de decisão do jogador deve ser mais rápida, e a todo momento do jogo ela é exigida”, afirma Lucas. E acrescenta: “Além disso, a diferença do piso entre [os campos das] modalidades faz com que a forma de bater na bola, de dominá-la e de conduzi-la seja muito distinta”.

As equipes de Lucas costumam jogar no padrão 4×0 (também chamado de quatro em linha). Ele explica: “Neste padrão não temos um jogador como referência no ataque, como ocorre no 3×1, em que o pivô fica mais centralizado perto do gol adversário. Todos se movimentam constantemente”.

infográfico análise de jogo
Legenda: Retângulos amarelos = Jogadores; Setas cheias = mudanças de direção; Seta pontilhada = passe. O infográfico demonstra a possibilidade de todos os jogadores ocuparem os espaços da quadra, sem ter posição fixa.

Esse espaço tático entre as duas modalidades, aparentemente sutil, pode enganar o jogador que, tendo sucesso em uma, opte por migrar à outra. Lucas concorda que dificilmente um atleta de futsal, mudando para o futebol (ou vice-versa), tenha o mesmo nível de desempenho nos dois esportes. O caso mais emblemático talvez seja o de Falcão, ídolo maior do futebol de salão brasileiro. Falcão foi eleito melhor jogador de futsal do mundo pela FIFA em quatro ocasiões (2004, 2006, 2011, 2012), é o maior artilheiro mundial de seleções de esportes ligados ao futebol e coleciona dezenas de outros títulos individuais, além dos troféus nos clubes pelos quais passou. O atleta tentou uma carreira pelo futebol de campo, em 2005, quando foi jogar no São Paulo F. C., no entanto, a passagem não foi bem sucedida. O craque fez apenas 13 jogos e não marcou nenhum gol, retornando ao futsal consequentemente.

Se até mesmo Falcão, dono de um talento excepcional, tem problemas de adaptação, como trabalhar o avanço tático em razão da debilidade técnica do atleta? Thiago André Rigon, o “Thiba”, formado em Educação Física e Esporte na USP, hoje treinador universitário de futsal da equipe feminina de Direito USP, diz que técnica e tática são qualidades indissociáveis. No entanto, sugere ser possível competir com atletas menos experientes ou de menor nível técnico, destacando o papel do treinador em ser capaz de indentificar os pontos fortes de cada jogador. Thiba aponta algumas propostas estratégicas executáveis para uma equipe menos habilidosa, desde apostar nas ações sem a posse da bola (segundo ele, escolha mais conservadora), passando pela grande utilização de bola parada e, enfim, algo menos trivial, como usar um goleiro-linha. “Nesta estratégia”, explica ele, “utiliza-se um jogador a mais fora da área para concretizar um ataque de 5×4, o que pode ser mais ou menos ofensivo, à medida que permite atacar o adversário sem abrir sua defesa, pois há a manutenção da posse da bola”.

Ainda quanto à limitação técnica, Lucas acha que isso pode atrapalhar menos caso o nível da competição em disputa seja também menor. “O treinador deve analisar qual a limitação técnica de seus jogadores e basear seu trabalho tático de acordo com isso, visando diminuir essa deficiência”, pondera. E previne: “mas até certo nível de jogo”. Lucas lembra que as equipes vencedoras são todas formadas de componentes altamente técnicos e táticos. Isso, contudo, só aumenta o papel do profissional no desenvolvimento da equipe. Afinal, o aspecto técnico é também passível de evolução com treinos direcionados.

Diante de tudo isso, ainda muito se questiona o porquê de o futsal ainda não ser um esporte olímpico. As explicações convergem no mesmo problema: questões políticas. “A integração do futebol ao programa olímpico esbarra em interesses do COI e da FIFA. Creio que o futsal concorreria diretamente com o futebol, e não seria producente para a FIFA estimulá-lo”, analisa Thiba. A questão econômica é destacada por Lucas: “apesar de a modalidade ser muito difundida pelo mundo, o retorno econômico que ela proporciona não é tão grande. Exemplo disso é a divulgação dada pela mídia em um Mundial de Futsal em comparação a outros esportes”. Lucas critica a condições para a prática e o fortalecimento do futebol de salão, lembrando que, no começo de novembro, foi divulgado que a Confederação Brasileira de Futsal (CBFS) não tinha verba para levar a seleção brasileira de futsal feminino para o Mundial na Costa Rica. “Isso é falta de estrutura e organização”, critica ele, “enquanto isso não melhorar, as chances de o futsal se tornar olímpico continuarão distantes”.

 

 

 Crédito foto de capa: Divulgação InterU /  http://interu.com.br/noticias/resumo-da-rodada-26-e-2710/