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Matheus Sacramento | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]A[/dropcap]pesar de pequena e recente, a Associação Atlética Acadêmica XV de Outubro, mais conhecida como atlética da Educação, conseguiu resultados surpreendentes na Copa USP, chegando às semifinais no vôlei feminino e às quartas no handebol feminino. Mas não é só dentro de quadra que essa atlética vem se destacando. A XV de Outubro propõe um modelo diferente, que une esporte e debate político. Para entender essas questões, entrevistamos Cyndel Augusto, Presidente da atlética, e Giulia Perini, Diretora Geral de Esportes.

Foto 1 - Entrevista BEAT
Giulia Perini, a DGE (esq.) e Cyndel Augusto, a presidente (dir.) Crédito: Matheus Sacramento

 

Deve ser difícil comandar uma atlética pequena, sem tradição. As calouras já chegam com uma ideia pré-concebida da atlética. Como vocês lidam com essa mentalidade?

Giulia Perini: Nossa principal dificuldade é a questão mais política. Existe um preconceito muito grande na Faculdade de Educação de que as atléticas são alienadoras, apolíticas. E a nossa proposta enquanto gestão é o contrário. A gente se apropria dos debates aqui da faculdade. O pessoal olha para a atlética com um olhar de preconceito. Não treinam porque acham que ela é alienada. Temos que desconstruir essa ideia e mostrar que nossa atlética, pelo menos, tem uma proposta diferente. Por exemplo, nossa posição foi de não entrar na liga se ela acontecesse no período de greve, não achamos certo. Pelo contrário. Nossa posição é que a LAAUSP [Liga Atlética Acadêmica da USP] e as atléticas deveriam, em vez de “boicotar” a greve, se incluir nas pautas, discutir o esporte universitário.

Cyndel Augusto: Concordo com a Giulia. Esse é o principal fator que acaba influenciando para que as pessoas não treinem. Porque realmente existe esse preconceito de achar que todas as atléticas seguem um determinado padrão. Como a maior parte das pessoas aqui estão inseridas nos movimentos políticos e sociais, é muito difícil desconstruir essa imagem de atlética que não se apropria dos debates e que é apolítica.

 

Como vocês pretendem mudar isso? É possível fazer a atlética crescer pelo prisma político?

Cyndel Augusto: Ainda estamos encontrando os melhores mecanismos para mostrar que nossa atlética não se preocupa somente com os treinos. Não que isso não seja importante, a gente enxerga, sim, a necessidade de se participar do esporte. Mas também tentamos mostrar essa outra proposta para tentar abarcar todas as pessoas da faculdade. Fazer com que elas consigam enxergar dentro do esporte a importância social e de saúde que ele tem.

Giulia Perini: Vincular o esporte e a educação é outra coisa que a gente tenta trazer também, porque as pessoas às vezes acham que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Engraçado porque, numa faculdade de educação, esse é o mínimo que a gente pode fazer. Discutimos a ascensão social pelo esporte, por exemplo. As crianças que trocam a escola pelo esporte achando que terão uma chance melhor de vida. Estamos criando esses debates para mostrar que a Atlética não é só “vamos lá treinar”. Tem essa parte, mas tem outras coisas também.

 

Além dessa dificuldade política, a questão financeira também deve atrapalhar bastante…

Cyndel Augusto: A atlética é pequena e muito recente, então conseguir bancar as modalidades é muito difícil. A gente ainda não teve o tempo hábil para conseguir fazer um fundo suficiente para as modalidades. Geralmente os campeonatos são muito caros e nós não temos muitas pessoas no time. Então, mesmo que nós pagássemos com nosso próprio dinheiro, somos poucas, seria uma quantia muito alta por cada menina.

Giulia Perini: Até porque temos pouca gente na gestão. São poucas pessoas para fazer muito. Queríamos participar de campeonatos como o BIFE. Chegamos a receber a carta-convite, mas não pudemos participar por falta de estrutura. A atlética vive de venda de moletom, artigos, festas que a gente consegue fazer. Mas os times têm que “se virar nos trinta”, se bancar. Têm que pagar o próprio técnico, os campeonatos, uniforme. Eles fazem rifas, vendem bolos nas festas, fazem de tudo. Correm atrás de doação de material. Mas a atlética está conseguindo, nesse ano, “rachar” alguns campeonatos com os times.

 

E mesmo com todas essas dificuldades, vocês conseguiram resultados surpreendentes esse ano. Como é que a Educação venceu outras atléticas maiores?

Cyndel Augusto: A gente teve de batalhar muito para chegar onde a gente chegou. Treinávamos muito. E agora, na época de greve, tivemos que procurar quadras por fora, a qualidade do treino é prejudicada. Mas foi muito motivador que conseguimos meninas que já jogavam antes, por fora. Pensamos assim: “nossa, vamos agarrar isso com todas as forças”. De toda forma, estamos lutando para que os times criem uma tradição e que isso continue.

Giulia Perini: Acho que foi vontade das atletas. A vontade dos times de jogar, de correr atrás, de vencer. Acho que isso é o principal. Foi uma evolução. É o terceiro ano do vôlei e segundo do handebol. O handebol foi montado ano passado e o vôlei no retrasado.

Cyndel Augusto: Principalmente para o Handebol, porque surgiu depois do vôlei. Foi uma grande luta conseguir construir um time de Handebol na pedagogia. Muitas pessoas já são formadas, tem outra graduação, trabalham até sete da noite. Chegam na faculdade, não tem tempo de coisas fora de sala de aula. É muito difícil conseguir montar times aqui. Então, ter conseguido um resultado dessa maneira, com dois anos de time, é algo muito vitorioso para nós.

 

 

Crédito foto de capa: Time de handebol da atlética XV de Outubro (FEUSP)