Os ciclos da ex-atleta e técnica de handebol dentro do esporte

 

Por Beatriz Quesada | Jornalismo Júnior


   [dropcap]A[/dropcap]os 23 anos, Renata Antunes está prestes a se formar em duas faculdades, disputou mais de 40 campeonatos entre profissionais e amadores e já treinou cinco times, sendo hoje técnica de três equipes universitárias mesmo sem ter concluído os estudos como bacharel em esportes na Escola de Educação Física e Esporte, EEFE-USP.

Renata em 1999 durante um campeonato entre escolas pelo Colégio Magister/Arquivo Pessoal
Renata em 1999 durante um campeonato entre escolas pelo Colégio Magister/Arquivo Pessoal

   A história com o handebol começou em 1998, quando o professor do colégio Magister, onde estudava, percebeu o talento da aluna para o esporte: já no ano seguinte Renata disputava seu primeiro campeonato entre escolas. Nos próximos anos, por meio do trabalho de olheiros, foi convidada a jogar pelo São Paulo e pela Hebraica. Teve que recusar a primeira proposta por causa dos estudos, mas com o segundo clube jogou pela federação. Além disso, conseguiu uma bolsa integral no Colégio Campos Salles para jogar: “Foi ai que eu comecei a entender que o esporte não era só quadra, o handebol sempre me trouxe muita coisa de fora, por exemplo, o estudo”, conta a atleta.

   Durante o ensino médio, sofreu uma cirurgia em cada joelho devido ao rompimento do ligamento cruzado anterior, causado pela busca de rendimento exigida pelos clubes. As operações tinham como objetivo retornar para o esporte e esse tempo “parada” só servia para incentivá-la a jogar cada vez melhor, segundo ela própria. Depois de terminar os estudos, foi convidada a jogar pelo “time dos sonhos”, descrição que a jogadora dá ao Clube Metodista. Infelizmente, a oportunidade logo virou pesadelo, quando ocorreu um novo rompimento no joelho direito, que fez com que Renata se sentisse muito desgastada – aos dezoito anos já tinha feito três cirurgias – e desistisse de jogar handebol, fechando o ciclo de atleta profissional.

   Essa separação não durou muito tempo: ao entrar na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE/USP), em 2010, foi logo convocada pelas veteranas a defender o time de hand da faculdade: “Eu disse que não jogava mais, tentei enganar, mas eu não consegui, fui no primeiro treino e ai voltei pro handebol de novo”. Na universidade, Renata ficou muito entusiasmada com a abordagem de sua nova técnica Adriana Ventura: acostumada com as constantes cobranças características de clube, foi uma surpresa encarar uma mentalidade que trabalhava em cima da formação do grupo e não no desempenho de cada atleta.

   O modelo de criação de uma identidade para o time alterou o modo como Renata encarava o esporte, tanto que um de seus momentos mais marcantes em quadra não foi propriamente uma vitória, mas uma demonstração de união do time. A partida foi a final do INTEREF 2010, no qual a EEFE disputava com a UniSantana: “A gente tentou fazer aérea, tentou fazer gol bonito, e comemorava com a torcida, e quando acabou, elas foram campeãs mas a gente ficou na quadra fazendo festa”.

Renata recebe o título de melhor atleta da final do INTEREF 2010/Arquivo Pessoal
Renata recebe o título de melhor atleta da final do INTEREF 2010/Arquivo Pessoal

   A experiência com algo mais profissional, ainda fora dos clubes, veio com a oportunidade de jogar pelo Mackenzie. No segundo ano de educação física, a atleta iniciou o curso de publicidade e propaganda com bolsa integral para jogar handebol. No mesmo ano de início da nova faculdade, surgiu a oportunidade do primeiro trabalho como técnica com os times masculino e feminino do IME, Instituto de Matemática e Estatística. Até então trabalhar fora de quadra nunca tinha passado por sua cabeça, mas havia um reconhecimento do seu esforço e dedicação ao esporte dentro da comunidade universitária, inclusive no IME, que fez o convite.

   Renata jogava tanto pela USP quanto pelo Mackenzie, contanto que os campeonatos não conflituassem,  e ainda trabalhava como técnica; essa sobrecarga fez com que houvesse um novo rompimento do ligamento do joelho direito, que passou por sua terceira cirurgia em 2012.

Trabalho de técnica com o time feminino de handebol do IME/Arquivo Pessoal
Trabalho de técnica com o time feminino de handebol do IME/Arquivo Pessoal

   O ano da operação foi um período de repouso total dentro de quadra, nas duas faculdades. Renata conta que sabia de sua necessidade de poupar o corpo do esforço físico, mas o ano seguinte chegou com a oportunidade de jogar seu primeiro JUCA, Jogos Universitários de Comunicações e Artes, pelo Mackenzie, e ela não podia ser descartada. Os treinos voltaram com força total e foram recompensados com a vitória nos jogos no handebol da competição, e com  a volta nas dores no joelho.

  As lesões já sofridas somadas às novas dores levaram a um processo de amadurecimento e à decisão de parar definitivamente de jogar. Não foi fácil, ainda mais porque se tratava de uma imposição do corpo e não uma escolha pessoal, mas o passar do tempo levou à compreensão de que não se tratava de uma perda, mas sim uma passagem de um ciclo dentro de quadra para um ciclo fora de quadra: “Desde pequena eu sempre vivi jogando, mas eu comecei a me ver gostando de estar do lado de fora orientando; é diferente, mas eu comecei a gostar muito”.

   No segundo semestre de 2013, já “aposentada” como atleta, Renata foi convidada para ser técnica do handebol feminino da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP). Foi um desafio tentar articular a equipe em pouco tempo, mas a equipe conseguiu vencer o BIFE, campeonato interno entre algumas faculdades da USP, apenas dois meses depois: “Tudo que eu já tinha feito com dinâmica no IME eu continuei com elas e deu muito certo, o time tava muito unido e confiante e conseguimos ganhar”.

    No JUCA seguinte, seu novo time enfrentou as campeãs e antigas companheiras de jogo na final, isso aumentou a emoção da partida, mas não gerou sensação de mal-estar nela ou nos grupos, devido a um respeito mútuo entre ela e sua antiga equipe construído nos campeonatos anteriores.

Renata como técnica do time da EEFE em 2014/Arquivo Pessoal
Renata como técnica do time da EEFE em 2014/Arquivo Pessoal
Comemoração da vitória contra a FAU, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na final no BIFE/Arquivo Pessoal
Comemoração da vitória contra a FAU, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na final no BIFE/Arquivo Pessoal

   Atualmente Renata treina três times: feminino da ECA, feminino do Direito-PU, e o feminino da EEFE, equipe na qual começou o aprendizado da realidade do esporte universitário, e agora é instrutora das ex-companheiras de quadra. Recentemente colocou um ponto final na atuação como atleta ao realizar a quinta cirurgia, quarta no joelho direito, que pretende acabar com as dores, mas, como diz ela própria, não permite uma vida de maratonista.

   “Essa última cirurgia foi mais complexa e definitiva do que as anteriores, agora o pensamento não é mais operar para jogar, mas operar para ficar bem”, explica Renata durante sua sessão de fisioterapia de recuperação. Conta ainda que se as lesões não estivessem pelo caminho, talvez os antigos sonhos de participar de clubes no exterior ou da seleção brasileira tivessem virado realidade. Porém isso teria anulado todo o aprendizado dentro do âmbito universitário, as amizades, a admiração do time, todas as conquistas que não existiriam no profissional, no qual a busca por rendimento e as lesões seriam constantes e acabariam por encerrar sua participação no handebol como atleta mais cedo ou mais tarde.

Renata não olha o passado com melancolia, mas com uma sensação de que todas as oportunidades foram aproveitadas, os desafios foram aceitos, e formaram uma grande bagagem a ser levada adiante. Sobre os planos, o primeiro é se recuperar e seguir com os times, continuando na mentalidade de que o rendimento não é o ideal para o universitário. Para um futuro mais distante, a ideia de continuar como técnica parece interessante assim como o campo de reabilitação de atletas, preparação física e a carreira acadêmica. Porém, ainda é cedo para definir: com 23 anos ainda há muitos ciclos pela frente.

Primeiro título universitário - Bixusp 2010/Arquivo Pessoal
Primeiro título universitário – Bixusp 2010/Arquivo Pessoal
Crédito foto de capa: Beatriz Quesada