A evolução do capacete de futebol americano: sucessivos casos de vidas afetadas por concussões fomentam a corrida por um equipamento que proteja a todos tipos de choque.

Por Vitor de Andrade
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Bill Hewitt, ilustre jogador do Chicago Bears que nunca usou capacete

[dropcap]O[/dropcap] capacete (helmet), é um dos equipamentos de proteção obrigatórios para a prática do futebol americano, juntamente com a ombreira (shoulder pad). Serve para proteção da cabeça dos choques característicos do esporte e também é utilizado como identificação visual do time.

O capacete consiste em uma “casca” de policarbonato que cobre uma camada grossa de amortecedor e, em alguns modelos, uma câmara que pode ser inflada, que serve para aumentar ainda mais o conforto do usuário. Na área destinada à face o capacete é aberto, possuindo apenas uma grade de aço coberta com plástico, chamada facemask, que é diferente para cada posição do jogo. Para assegurar que o equipamento não saia durante a partida, há uma queixeira que segura o helmet na cabeça do atleta. Um visor acoplado à facemask é opcional.

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O amortecimento interno …
As partes externas do capacete
… e as partes externas do capacete.

 

 

 

 

 

 

 

 

História

A invenção do helmet foi creditada a um jogador da Academia Naval,  Joseph Reeves, que para o jogo Exército x Marinha de 1983 foi recomendo por seu médico a cuidar da cabeça, já que mais um choque poderia o levar a “insanidade instantânea” ou até morte. Então, ele pediu para um sapateiro fazer um capacete de couro para ele.

Depois deste evento, jogadores em geral passaram a usar capacetes de couro acolchoado que lembravam capacetes antigos de aviadores. Porém, eles não eram obrigatórios, nem mesmo na NFL (National Football League), sendo que muitos atletas jogaram todas suas carreiras sem usá-lo, até mesmo Bill Hewitt (foto de abertura), que está no Hall da Fama da NFL.

Capacete primitivo de couro.
Capacete primitivo de couro.

  Na década de 30, praticamente todos os profissionais utilizavam capacete, e em 1943 a NFL exigiu o uso do acessório. Porém o helmet de couro tinha seus problemas. Ele ainda não protegia bem a cabeça e machucados ainda eram comuns. Além disso eles absorviam calor facilmente, o que tornava jogos ensolarados difíceis para os atletas. Em 1938, houve uma revolução trazida pela empresa Riddell, de Chicago. Ela começou a fazer capacetes de plástico, que protegiam mais efetivamente, já que mantém seu formato após choques, também sendo mais confortáveis e com amortecimento mais grosso. Junto com este novo capacete chegou a facemask, feita de plástico na época, que permitia que toda a cabeça fosse protegida, assim como a chinstrap, como observado na foto abaixo, que era  conectado com o capacete com apenas uma fita, pórem já era ajustável, ganhando 2 fitas em cada lado apenas em 76.

Primeiro capacete de plástico, feito pela Riddel
Primeiro capacete de plástico, feito pela Riddel

Em 1971, foi inventado também pela Riddell uma câmera de ar que percorria o amortecimento interno e que podia ser também preenchida com fluídos, como gel. Esse modelo foi muito vendido na época e até hoje existem modelos com este tipo de câmara.

Desde os anos 70 não houve muitas inovações que não fossem estéticas. As facemasks passaram a ser mais elaboradas, assim como os desenhos nos capacetes. Os visores passaram a ser usados, para proteção do sol e/ou de prováveis “dedadas” nos olhos.

As únicas novidades foram a acoplação, nos anos 90, de “pontos” de audição dentro do capacete de capitães de ataque e defesa para se comunicarem com o técnico enquanto estão em campo. Isso facilitou muito o entendimento e execução das jogadas. Além disso, recentemente foram instalados obrigatoriamente em todos os capacetes da NFL, e também no nível universitário, sensores que computam a força e direção do impacto sofrido pelo capacete. Se a força gravada neste sensor ultrapassa certo nível, o jogador é obrigado a sair de campo. O mesmo acontece se ele sofrer uma série de pancadas de nível pouco menor, porém ainda perigosas.

A Concussão

A concussão é tipo mais comum de lesão traumática do cérebro no mundo todo. Ela está atrás de uma série de acidentes cerebrais que você já ouviu falar. A concussão consiste em uma tremida violenta do cérebro devido a um choque forte e inesperado na cabeça. Pode levar a perdas temporárias de função, porém uma série de casos em um pequeno intervalo de tempo pode levar a sequelas psicológicas, cognitivas e emocionais permanentes.

Sean Lee
Sean Lee, do Dallas Cowboys, sendo atendido após suspeita de concussão

A cada ano, o futebol americano é mais competitivo, não só nos EUA, mas no mundo inteiro, inclusive no Brasil. E para poderem se destacar, muitos jogadores se arriscam em jogadas perigosas para si mesmos e seus adversários. Porém a NFL, de longe a liga mais competitiva do mundo, apresenta números altos (quase 7% dos jogadores sofreram concussão pelo menos uma vez. Pouco? Em outros níveis, a porcentagem é de entre menos de 1%) de  problemas com lesões cerebrais. Apesar da implantação de regras contra o uso de capacete no tackle (derrubada) em 2010, o número de concussões na NFL cresceu até o ano de 2012, quando foram aumentadas aos milhões as multas impostas aos jogadores por impactos propositais com a cabeça. Os jogadores que mais sofrem concussões são os recebedores (receivers e tight ends), marcadores (cornerbacks e safeties) e corredores (running backs).  Na última temporada houve um decréscimo, porém um número ainda grande. Na última temporada a liga sofreu uma pequena crise devido ao tema.

Na temporada 2013-14, a NFL concordou em pagar um total de 765 milhões de dólares para um grupo de  jogadores aposentados que alegaram ter sequelas das suas experiências profissionais devido a negligência dada ao tratamento das concussões no passado. Muitos criticaram o pagamento da multa milionária, alegando que foi uma maneira de cobrir a discussão do assunto.

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Na mesma temporada, um novato que havia sido contratado pelo Arizona Cardinals não chegou a jogar um jogo oficial da liga, se aposentando antes do ínicio da temporada devido a duas concussões graves que sofreu durante a carreira universitária e uma possível concussão durantes os treinos pré-temporada, que o impossibilitou de continuar jogando. Alguns casos semelhantes, porém de jogadores veteranos, aconteceram nos últimos anos.

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Ryan Swope, o novato que se aposentou antes de jogar profissionalmente          Crédito: Sports360AZ

Porém não desligue a TV, o futuro é promissor para a segurança dos atletas. O sensor de impacto é uma realidade que já foi mencionada na matéria. O Instituto Nacional da Saúde dos EUA anunciou oito projetos novos para estudar como as lesões cerebrais da prática do esporte se desenvolvem e também projetar novas maneiras de proteger os jogadores de futebol americano. Estes estudos vem sendo intensamente financiados pela NFL, assim como a companhia General Eletric para desenvolver sensores avançadíssimos para prevenir completamente as sequelas de lesões cerebrais. Novos modelos obtiveram ótimos resultados em testes, aguentando impactos de mais de 2500 Newtons (250 quilos) sem sofrer falhas na estrutura, o que representaria perigo para o atleta. Além disso, novas tecnologias que surgem nas empresas a cada ano dão a esperança de um divertimento sem medo entre as endzones.