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Como a parceria público-privada e maior planejamento no investimento podem melhorar o cenário esportivo por meio do uso das leis de incentivo ao esporte.

 

Guilherme Caetano e Júlia Moura | Jornalismo Júnior

[dropcap]H[/dropcap]á muito são de conhecimento popular as vantagens trazidas pela constância dos exercícios físicos na rotina das pessoas. Além de terem migrado da obrigação ao lazer com o passar dos anos, as práticas esportivas representam grande parte do caminho para uma vida saudável. E, como a maioria das habilidades mentais e motoras, nas quais se é favorável a iniciação desde a infância, espera-se também que todos os jovens tenham as mínimas condições de exercer um esporte. Entretanto, na maioria das escolas de nível fundamental e médio brasileiras, não é o que acontece. Poderia esse baixo investimento no esporte escolar refletir severamente no nível esportivo das universidades brasileiras?

Primeiramente, de acordo com a professora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE/USP), Ana Lúcia Padrão, quem trabalha em um projeto de pesquisa sobre qualidade de vida e esporte e desenvolvimento de carreira de atletas, deve-se considerar a quantidade mínima de estudantes que possuem alguma experiência esportiva na escola. “De qualquer forma, existem tentativas de se incrementar a experiência educacional com atividades esportivas, mas mesmo nas instituições educacionais onde isso efetivamente acontece, é possível observar que, em geral, o projeto esportivo carece de fundamentação teórica para que exista sinergia com o projeto pedagógico da escola”, explica Ana Lúcia.

Existem, aliás, outros pontos fracos na forma em que o esporte é oferecido em todo o país. Em texto apresentado no Simpósio Internacional sobre Políticas para o Esporte de Alto Rendimento de 2013 sobre o suporte financeiro das práticas esportivas no Brasil, é aferido que cada nível da gestão pública do Esporte, Estadual ou Municipal, tem sua própria política e prioriza o assunto de forma particular, o que dificulta um desenvolvimento uniforme em nível nacional.

Em relação aos programas de esporte público e privado, a  professora Flávia da Cunha Bastos, da EEFE/USP, afirma que aparentemente não há relação direta entre a disponibilidade de recursos e o desenvolvimento de políticas, programas e ações de forma adequada e produtiva. No Brasil, entretanto, as parcerias público-privadas são bem vindas. Segundo Flávia, a participação do setor privado é essencial para o desenvolvimento dos esportes de alto nível. Ela destaca que a competitividade internacional cresce cada vez mais, o que aumenta os custos de atletas e equipes desse nível. “No país, os investimentos que temos não são insuficientes. Mas poderíamos desenvolver mais e melhores políticas de esporte”. A professora ressalta a necessidade de projetos estruturados e consistentes, que levem a resultados mais sólidos.

Agnelo Piva2

A Lei Agnelo/Piva destina 2% da arrecadação bruta das loterias federais do país em favor do Comitê Olímpico Brasileiro (85%) e do Comitê Paralímpico Brasileiro (15%). Dos 85% que lhe cabem, o COB investe obrigatoriamente por lei 10% no Esporte Escolar e 5% no Esporte Universitário, e o restante é aplicado nos programas das Confederações e do COB (fonte: COB, 2014).

 – Ao longo dos anos o esporte universitário tem recebido investimentos em milhões de reais pela Lei. Alguma vez você viu qualquer tipo de ação de desenvolvimento do esporte na USP? –

Ana Lúcia ainda lembra que, quando o investimento no esporte é real, muitas vezes é utilizado como marketing institucional, embora a possibilidade prática seja para poucos. Nas universidades em que a maior parte dos alunos estuda no período noturno e trabalha durante o dia, essas práticas não são sequer uma opção. Perguntada se existe uma distinção notável no desempenho esportivo de alunos da USP oriundos de instituições de ensino públicas e privadas, a professora alerta para o fato desta universidade ter características muito particulares, o que enviesa esse tipo de constatação.

Apesar de lamentar a escassez de dados para concluir uma resposta definitiva, Ana Lúcia cita Ronald Woods, autor de Social Issues in Sport: “Classes sociais com poucos recursos concebem o esporte como uma possibilidade de ascensão social e certamente tentam se dedicar efetivamente a uma carreira esportiva, porém, por falta de recursos, muitos não conseguem ter êxito. Deve-se lembrar que às vezes esta dedicação implica em abandono dos estudos. Por outro lado, indivíduos com vastos recursos financeiros concebem o esporte como forma de lazer, entretenimento e meio de se manter saudável, mas não tendem a abandonar os estudos ou outras atividades para desenvolver uma carreira de atleta profissional”.

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Os investimentos, portanto, não são escassos. No entanto, inexiste uma coesão e uma uniformidade no planejamento em nível federal, para que se tenha maior eficiência dos recursos aplicados. O esporte universitário, com isso, fica engessado, pois pouquíssimos estudantes chegam ao ensino superior com considerável grau de experiência esportiva.

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A. D. C. Estrela de Guarulhos e Nacional Gás/Uniforna em partida pela VIII Taça Brasil Correios de Futsal –      Sub-20 Feminino – Divisão Especial.   Crédito: Divulgação

Apesar de todos os esforços, ainda há muitas áreas nas quais melhorar. Dentre elas, principalmente a estruturação do esporte escolar, que é fundamental para a base dos esportes universitários e profissionais. Uma vez incentivadas com acompanhamento profissional e com as condições estruturais suficientes, as crianças criarão não somente o hábito, mas a afinidade necessária com o esporte que mais lhes agradar. Poderão, então, continuar praticando essas atividades sem ter de abandonar a rotina escolar ou vivenciar o esporte como único meio de renda. O país tem a ganhar, não só no pódio, como na qualidade de vida.


Programas e Leis de incentivo ao esporte de responsabilidade do Ministério do Esporte:

 

 

Crédito foto de capa: GazetaEsportiva.net / Divulgação