Por Thaís Ozzetti
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[dropcap]E[/dropcap]ra uma tarde bonita, daquelas de inverno em que o céu é mais azul e o sol aparece timidamente para esquentar os espaços onde não há sombra. Debaixo daquela árvore seria possível passar horas contemplando a paisagem criada pelo reflexo dos galhos e os movimentos sincronizados dos remos deslizando na água. Dava a impressão de que não muitos estudantes da Universidade de São Paulo sabiam da beleza de um fim de tarde ali nas raias olímpicas da Cidade Universitária. Enquanto alguns barcos passavam com diferentes distintivos de clubes, atletas suavam seus corpos em pleno período de recesso escolar. E foi ali que apareceu, perto das dezesseis horas, um moço alto, loiro, de braço esquerdo mobilizado e óculos escuros que escondiam pequenos olhos verdes. Abriu um sorriso, apresentou-se e sentou no banco bem em frente à raia e à garagem de barcos do Esporte Clube Pinheiros. Jairo Klug, prazer.

Vinte e nove anos de vida e história que vale a pena ser ouvida com atenção, aquelas que merecem uma tarde inteira de conversa. Quem escuta os primeiros minutos de sua fala tranquila não imagina as conquistas tão rápidas de um menino que começou a remar por “falta do que fazer” – pelo menos aos olhos incomodados do seu irmão. “Eu tinha dezessete anos e não praticava nenhum esporte. Foi por acaso, meu irmão estudava na USP e falou para eu me inscrever em cursos para quem não era da comunidade de alunos”.

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Jairo (fonte: acervo pessoal)

 O remo chamou a atenção entre aquelas modalidades que ainda tinham vaga. Duas vezes por semana, taxa semestral baixa, seria um bom começo. No entanto, nem o irmão mais otimista acreditaria que dos vinte alunos do curso, Jairo seria o único a continuar treinando pelo CEPE USP e em pouco tempo se tornaria um competidor de alto nível. Era um dia de aula como outro qualquer, em uma dessas tardes de 2001 quando o até então professor José Farah percebeu naquele adolescente um futuro promissor. “Não quer competir? Ele sugeriu e aí resolvi treinar.”

 “Eai, Gael, beleza?” Entre alguns cumprimentos de amigos que por ali passavam e falas tímidas trazidas por lembranças que chegavam rápido à memória, o moço sorridente soltava frases entusiasmadas do início da vida como remador – e não era pra menos, já que foi campeão  em sua primeira competição paulista em uma prova para estreantes. Depois, muita coisa em pouco tempo. Treinou no Corinthians, quando o técnico do clube o viu remando na raia olímpica da USP e, paralelamente, ganhou uma bolsa no cursinho. Em 2004, estaria mais próximo da Universidade de São Paulo do que nunca, então calouro de Educação Física. Treino às 5 da manhã, aula período integral, treino depois da aula. Para quem pensa que vida de atleta é fácil, Jairo é mais uma daquelas pessoas que provam o contrário.

 Talvez o início promissor tenha atraído também pitadas de sorte, já que quando o Corinthians no fim de 2003 fechava as portas para o seu treinador de remo, o Esporte Clube Pinheiros voltava com a modalidade depois de muitos anos. “Um dos auxiliares técnicos do Corinthians veio pro Pinheiros, conversei com ele e acabei vindo pra cá”.

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Mais um dia de treino – Jairo Klug (fonte: arquivo pessoal)

 O ritmo de treino aumentava na mesma proporção que o sono nas aulas durante o dia. Mas o esforço para conciliar o esporte com a faculdade era compensado nas competições. Tome fôlego: Em 2004 já participava de primeiro campeonato brasileiro, onde foi observado e depois convocado para a seleção brasileira de remo. Em 2005 participou Campeonato Sulamericano pela seleção, ainda como reserva; e no final do ano de mais um brasileiro – e ficou em segundo lugar. Em 2006, ano que antecedia o Panamericano, um simples movimento de sair do barco fez romper o menisco. Mas essa parte não parecia trazer grandes problemas para o paulistano de então vinte e dois anos, que operou o joelho em julho e em menos de um mês voltou a competir no campeonato brasileiro de agosto, depois de uma recuperação intensiva e surpreendente. “Você quer? – disse o técnico. Vamos ver né? Vi que tinha condições de remar e participei”. Resultado, terceiro lugar.

 Naquele momento já era possível visualizar o talento do homem de 1,90m deslizando o seu barco nas águas logo ali em frente. Enquanto o vento de inverno começava esboçar um sopro mais forte, as lembranças das competições não paravam de vir à tona. Em 2007, ano do Pan, passava o primeiro semestre inteiro fora treinando em Porto Alegre e Rio de Janeiro, já com a equipe toda, com quem conseguiu um quinto lugar. No fim do ano, outro campeonato brasileiro e mais um podium na segunda colocação. “Será que eu remei nesse?”, deixava escapar algumas memórias. “No ano seguinte, já treinando com mais atletas, pudemos participar de campeonatos com outros barcos maiores e ganhamos o primeiro título do brasileiro”. Quatro remadores, um remo por pessoa. A chamada categoria 4- (sem timoneiro, homem que fica no barco para dar a direção) trouxe o primeiro ouro e motivo de orgulho maior por ser em cima dos maiores campeões da categoria até então. Em 2009, mais um título do brasileiro com o barco  2- (um remo para cada lado). A sincronia crescia à medida que aumentava a vontade de treinar e competir. Ano seguinte já fazia outra seletiva e o melhor tempo do simulador de remo com 6min15s em 2000 metros. Estava bem.

 Sexta-feira, 15 de abril de 2011. Jairo despedia-se dos seus amigos depois do treino na raia olímpica para seguir em direção à sua casa no Rio Pequeno, ali perto da USP. Acordou numa cama de UTI. “Estava voltando de moto, a única coisa que eu lembro é isso”. Não se sabe ao certo o que causou o acidente e a memória parece não fazer questão de saber. Sabe que tinha um caminhão envolvido e que foi resgatado de helicóptero, levado direto pro Hospital das Clínicas – provavelmente caiu do lado esquerdo. “Foi sério”. E isso nem precisaria ser dito, é só deixar que ele fale todos os ossos que fraturou. Tome fôlego novamente. Fratura exposta no fêmur da perna esquerda, fratura na tíbia e fíbula da perna direita, braço, úmero, clavícula, escápula, quatro vértebras e contusão pulmonar. Dez dias na UTI e alguns dias na enfermaria com pinos de fixação externa, depois cirurgia de fixação interna e mais vinte e cinco dias, trinta e cinco no total. Parecia uma prova de paciência para quem estava acostumado a treinar diariamente duas vezes por dia, ficar deitado, imobilizado. Depois da alta, cadeira de rodas por dois meses, muleta, colete cervical- que já usava nos últimos dias de hospital. Jairo fazia aniversário três dias depois do acidente, em 18 de abril. E jamais pensava ter um ano novo tão diferente.

 Mas sua recuperação rápida mostrava-se também após o acidente. Em poucos meses de fisioterapia livrava-se das muletas, dos coletes e esboçava um retorno aos treinamentos. A única coisa que preocupava era uma lesão do nervo radial da mão esquerda, responsável pela extensão do punho e dos dedos, em que fez um enxerto, mas não apresentava melhoras e a fisioterapia também não mostrava evolução. A expectativa da recuperação era grande, fazia fisioterapia e o fortalecimento estava avançado. “O médico dizia que se em um ano não melhorasse nada do enxerto era muito difícil voltar o movimento”. O prazo estava acabando, já era março de 2012.

 

[quote style=”boxed”]Em poucos meses de fisioterapia livrava-se das muletas, dos coletes e esboçava um retorno aos treinamentos.[/quote]

 

 Nesse momento, o som dos pássaros já se misturava com o barulho dos helicópteros que voavam ao redor da cidade universitária, e a fala pausada fazia os minutos parecerem mais longos. “Um desses dias em que estava treinando, já sem perspectiva de recuperar o movimento, Fernando de Campos Mello me viu e falou para eu tentar uma vaga na seleção paralímpica”. Por que não?

Era o começo da mudança. Primeiro, três vezes por semana, depois, já estava treinando todos os dias. E se o início da carreira profissional como remador havia sido rápida, Jairo conseguiu surpreender ainda mais no esporte paralímpico. Em abril voltou a treinar, agora com José Paulo e em maio fez seletiva e foi bem, convocado pela seleção para uma etapa da Copa do Mundo em Munique e classificado de maneira inédita para a final A. Depois, também convocado para as Paraolimpíadas de Londres. Atualmente o braço esquerdo mobilizado parece ser apenas um detalhe, já que as competições continuam a todo vapor. E o barco que por um tempo parecia afundado, voltou a deslizar em alta velocidade. Já diziam, o começo é sempre hoje.

Crédito foto de capa: Confederação Brasileira de Remo