A construção de um time campeão necessita tempo, dedicação e estratégia. O Vôlei Feminino da FAU USP cumpriu todos os requisitos e chegou no topo do pódio.

Por Gabriel Lellis

Defender em quadra as cores de uma Atlética na Universidade é uma experiência emocionante que todo ano marca a vida de centenas de meninos e meninas do esporte universitário. A sensação de disputar um Inter e ver as arquibancadas lotadas, independentemente da modalidade, é algo indescritível.

Anualmente, entram novos alunos. Os times renovam e se modificam. Alguns mantêm a boa qualidade, enquanto outros sofrem para conseguir ao menos marcar um ponto em quadra. De qualquer forma, o tempo passa e, aos poucos, algumas equipes, vencedoras ou não, acabam esquecidas (algo natural e cíclico no esporte universitário).

No entanto, toda regra tem a exceção. Em 2009, no time de vôlei feminino da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU USP), nascia um ciclo vitorioso que durou quatro anos e entrou para a história.

A mente por trás do time campeão

Comandadas por Tiago Mizael (mais conhecido como Jesus), as meninas da FAU conquistaram mais de dez títulos. No rol de troféus, há 3 InterFAU, 3 FunFAU, 3 BIFES e um NDU invicto. Daquele grupo vencedor, capaz de assustar potências como POLI, FEA e EEFE, 7 jogadoras foram emplacadas na Seleção USP.

Hoje, técnico das equipes masculinas Sub-17 e Sub-19 do Sesi, Jesus fala com empolgação sobre aquele time e tem um brilho nos olhos ao lembrar de alguns momentos como técnico: “Sempre deixei claro para minhas atletas que eu treinava por amor ao esporte”, afirma. “Eu falava que elas tinham de dar o melhor de si porque, após saírem da Universidade, suas  melhores lembrança seriam as dos momentos no time em que jogaram.”

Antes de chegar ao posto de técnico principal no time da FAU, Jesus também treinou a equipe feminina da Faculdade de Veterinária. Adepto de inovações táticas, o técnico mostrou com o time da Veterinária que era possível ser vencedor fora dos padrões tradicionais.

As estratégias do treinador

Geralmente, a maioria das equipes se posiciona defensivamente com duas jogadoras no bloqueio de rede e outras quatro na parte de trás do campo, alinhadas de forma a desenhar o traçado de um quadrado.

A estratégia comumente usada é  útil para defender bolas que venham de forma reta após uma “cortada” adversária. da USP. Pegou o time desmotivado e criou uma cultura esportiva, levando a equipe a resultados importantes, como o 4º lugar nos Jogos da Liga e um 2º Lugar na primeira fase do Circuito Santander.

Entretanto, a maioria dos ataques no Vôlei Universitário ocorre de forma diagonal, pois a não existência  de treinos físicos inviabiliza que a atleta tenha força suficiente para lançar a bola de forma reta. Além disso, essas equipes costumam repetir em todos os jogos as mesmas jogadas e estratégias. Essa previsibilidade ajudou Jesus a desenvolver uma estratégia de sucesso.

Contando com poucas jogadoras de estatura alta para realizar os bloqueios, Jesus manteve apenas uma na região da rede. As cinco meninas restantes protegiam o restante da quadra, porém, ao invés do traçado tradicional de um quadrado, formaram uma espécie de “meia-lua”, que cobria inteiramente a área suscetível a ataques diagonais.

Tempos depois, já no comando da FAU, o técnico enfrentou uma equipe que utilizava sistema de jogo parecido com o da Veterinária e sofreu para conseguir furar a defesa adversária e vencer.

No comando da equipe da FAU, manteve o uso da defesa em “meia-lua”, com a diferença que, desta vez, duas jogadoras ficavam no bloqueio. O espaço vazio gerado com a adição de mais uma bloqueadora era compensado pela própria jogadora de rede.

Nesta posição, o time tinha como titulares Lilian, de alta estatura, e Mini, um pouco mais baixa, mas ágil. Esta última era a responsável por proteger o ponto fraco da equipe. Segundo Jesus, algumas jogadas no Vôlei Universitário são muito previsíveis. Sendo assim, treinou Mini para prever a jogada e defender a bola no momento exato no qual o adversário tentaria explorar essa aparente “fraqueza”.

[quote style=”boxed”]A jogadora Mini sai da rede para proteger a parte vazia da quadra.[/quote]

A alma daquela equipe era a líbero Adriana Turrin. De todo o elenco, ela não era tecnicamente a melhor jogadora, porém o seu diferencial estava na força de sua liderança. “Ela era a ‘cola’ que mantinha o grupo unido”, afirma o técnico. “Toda a energia que a Adriana tinha em quadra motivava a mim e as outras meninas. Não importava se ganhávamos por vinte pontos de diferença. Ela continuava vibrando e dando o seu máximo em cada jogada”. Adriana foi convocada para jogar pela Seleção USP. E jogou cerca de 6 anos seguidos pela FAU.

As gerações mudam, o sucesso fica

Jesus alcançou o sucesso com aquela equipe não apenas por seu brilhante raciocínio estratégico. O verdadeiro segredo está na sua filosofia como técnico: “Tanto o atleta como o técnico devem ter comprometimento. Treinar sempre no ritmo mais forte é essencial”, diz.  “É como dirigir um carro. Se você esta sempre acostumado a andar a 5 Km/h na hora decisiva não vai conseguir pilotar a 500Km/h. É preciso andar rápido sempre”. Jesus ainda completa: “Você tem de tirar 100% de cada atleta, porém sempre colocando metas plausíveis para que ele seja capaz de alcançar”. Até hoje, ele conserva em sua casa o caderno no qual anotava o relatório de cada treino, que, no final do ano, era usado na produção de um feedback dado a cada atleta.

O tempo passou e essas jogadoras que fizeram história saíram da Universidade. Jesus também seguiu o seu caminho, e deu prosseguimento na carreira. Juntos, formaram uma equipe exemplo para diversas gerações de esportistas, técnicos e atletas. Não era apenas um time excelente tecnicamente, mas também uma família, provando que o segredo do sucesso está primeiramente no amor pelo esporte.

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