Entenda como a relação entre ciclo menstrual e atividade física e como ela influencia no desempenho esportivo

Por Marina Morais

Para quem é mulher e atleta, além dos desafios rotineiros da prática esportiva, existe um cuidado a mais. Todo mês, mulheres em idade reprodutiva (ou seja, após a menarca e antes da menopausa), passam por variações hormonais que definem o ciclo menstrual.

Essas variações, além de influenciarem nas funções reprodutivas femininas, também interferem diretamente no desempenho esportivo.

E, apesar de existir uma base já estabelecida do que se sabe do ciclo menstrual feminino, cada mulher tem seu próprio ciclo. Por isso, sente os efeitos dele de formas distintas de outras mulheres.

Ajuda ou atrapalha?

A ideia comum é de que o rendimento esportivo seja afetado negativamente no período pré-menstrual e menstrual. Mas isso não é sempre verdade e pode variar bastante de mulher para mulher.

De acordo com a ginecologista do Time Brasil do Comitê Olímpico Brasileiro, Tathiana Parmigiano, os efeitos da variação hormonal no desempenho físico são muito individuais.

Ela conta que existem mulheres que sentem efeitos negativos no período pré-menstrual e menstrual, por exemplo. Entretanto, também existem aquelas que não sentem diferença nenhuma. E, até mesmo aquelas que percebem melhora no rendimento nesse período do mês.

Como funciona o ciclo menstrual?

Primeira fase

O ovário de uma mulher que não usa nenhum método contraceptivo à base hormonal produz três hormônios: estrogênio, testosterona e progesterona. Na primeira fase do ciclo, o estrogênio aumenta progressivamente. Isso faz com que o endométrio (camada interna do útero) se prolifere e, então, prepare o útero para receber um embrião.

Durante essa fase, normalmente as mulheres sentem uma melhora no desempenho esportivo. “As mulheres respondem que preferem competir ou treinar após a menstruação, que condiz com o período do estrogênio.Na minha tese de mestrado, descobri que essa é a fase do ciclo as mulheres atletas preferem treinar”, explica a Dra.

Além disso, no meio do ciclo há a ovulação, fase em que ocorre um pico na produção de testosterona no corpo da mulher. Dessa forma, há um aumento da libido, propiciando ainda um bom momento para a prática esportiva.

Segunda fase

Após a ovulação, inicia-se a segunda fase do ciclo. Nela, há o aumento da progesterona, que prepara a mulher para a gestação. Caso ela ocorra, a progesterona continua alta com a gravidez. Caso não ocorra, há uma queda na progesterona e a mulher deve menstruar.

Portanto, é na segunda fase ocorre o período pré-menstrual (caracterizado pela TPM). Em seguida do período menstrual em si, que, além do fluxo, pode vir acompanhado de cólicas e outros sintomas.

Apesar de serem considerados sintomas ruins por muitas mulheres, existem aquelas que usam a seu favor na prática esportiva. “Tem mulher que usa da TPM a seu favor. Um pouco de irritabilidade, se bem administrada, acaba sendo um fator positivo”, explica a Tathiana.

Mas vale sempre lembrar que os efeitos são individuais. “Às vezes as pessoas acham que o ciclo é prejudicial a todas as mulheres. Entretanto, isso não é verdade. Eu tenho pacientes, inclusive, que gostam de competir menstruadas”, aponta a ginecologista.

Anticoncepcionais e rendimento esportivo

Muitas mulheres recorrem ao uso de anticoncepcionais para ter maior controle do seu ciclo menstrual e adequá-lo da melhor forma possível às práticas esportivas. Mas a especialista alerta: as mulheres que optarem por essa forma de controle do ciclo menstrual e de método contraceptivo devem, sempre, ter um acompanhamento médico.

Em relação à escolha dos anticoncepcionais, a doutora explica que os chamados combinados são os mais escolhidos – a maioria das pílulas, o adesivo e o anel vaginal. “Os anticoncepcionais que possuem estrogênio e progesterona fazem com que a mulher fique semelhante em termos hormonais durante o mês inteiro”.

E com o uso da pílula, é possível “programar” para que a mulher menstrue no período que julgar melhor de acordo com seu calendário competitivo. Isso, geralmente, implica em colocar a menstruação antes das competições, diz Tathiana.

E a testosterona?

Com o uso de anticoncepcionais, a produção hormonal nos ovários é diminuída. Isso afeta, então, diretamente na produção de testosterona pelo ovário, hormônio que não está presente nos anticoncepcionais combinados.

Mas, segundo a ginecologista, isso não significa necessariamente que a mulher que faz uso de anticoncepcionais terá pouca testosterona. Isso porque o corpo feminino ainda produz o hormônio na glândula suprarrenal e nos tecidos periféricos, como nas células de gordura.

Por isso é necessário avaliar cada caso individualmente, como o ciclo menstrual afeta ou não cada mulher, se mais atrapalha ou mais ajuda no rendimento esportivo.

Porque sempre vão existir casos de mulheres que, sem o uso de anticoncepcionais, permanecem com os níveis de testosterona altos, mas os sintomas da menstruação acabam atrapalhando muito.

Da mesma forma como sempre vão existir casos nos quais as mulheres que usam anticoncepcionais conseguem controlar a menstruação. Mas sentem essa falta de produção de testosterona pelos ovários de forma mais acentuada.

 

Mulheres no esporte

Machismo no esporte: a importância da representatividade feminina
Sob o comando delas: questões de gênero no esporte
Dia da mulher: o machismo continua, mas a luta também