O primeiro evento de gamers femininas, o “E-Minas”,  debate as dificuldades que elas passam no mundo dos jogos e a luta pelo respeito e pela igualdade.

 

No dia 23 de março, aconteceu um encontro muito especial no mundo dos jogos eletrônicos, o “∃-Minas”, no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP.

O evento ficou marcado como o primeiro do gênero organizado pela Atlética do IME (AAAMAT). Grandes nomes femininos do universo gamer participaram. E lá foi contextualizado um pouco do que as mulheres enfrentam para conquistar o seu espaço no mundo do E-Sports.

Além disso, o encontro trouxe histórias sobre as barreiras encontradas em mais um nicho que se desenvolve de jeito agressivo e pouco convidativo à presença feminina.

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Um tema que é discutido em qualquer contexto quando se fala da diferença de participação feminina e masculina é a representatividade. nos games não seria diferente.

Por isso, o discurso de algumas das palestrantes esteve marcado pela figura do personagem dos jogos. Em sua maioria, as mulheres guerreiras são sexualizadas. Elas usam poucas vestimentas e com muito destaques para as curvas do corpo.

Ao contrário dos homens, que são carregados de músculos e equipamentos que representam de forma mais fiel o que se espera de um personagem em uma batalha.

Ou seja, as mulheres não se sentem representadas ou confortáveis com a imagem que interpretam virtualmente. Se sentem totalmente estereotipadas e não representam a variedade feminina. Além disso, muitas vezes, apresentam uma aparência que não é compatível com o contexto do jogo.  

Para ilustrar, SulaMoon, artista colaboradora da Blizzard e de outras produtoras de games, trouxe vários relatos sobre suas participações na criação de personagens.

Dentre elas, relatou sobre uma personagem feminina na qual tentou retratar uma guerreira menos sexualizada. E, para a sua decepção, pediram que ela aumentasse o decote e desse destaque para os seios. Portanto, ainda temos muito o que avançar. 

Assédio e preconceito nos jogos

Dado esse cenário, juntamente a todo o contexto social machista em que vivemos, mais uma dificuldade se consolida no mundo virtual: o assédio.

Tendo em vista isso, a participação feminina é fortemente afastada ou disfarçada. Isso por causa da reação dos homens quando se dão conta que existe uma player feminina.

Os relatos trazem frases que vão de “casa comigo” até “estou de pau duro”. E, quase sempre, sem qualquer interação da jogadora com o assediador.

Por esses e outros motivos, a participação das mulheres é inibida. De um lado, o assédio diário causa um tremendo desconforto para quem tem a coragem de assumir a identidade feminina. De outro, muitas mulheres ainda se escondem por medo.

Foi o que rolou com Nayara Sylvestre, caster (narradora e comentarista) de games, streamer e HearthStone player. Na etapa feminina da WESG (World Eletronic Sports Games), ela sentiu muito nervosismo e medo do julgamento. Isso porque havia só quatro mulheres participando do campeonato.

Campanha #MyGameMyName

Com o objetivo de minimizar esses problemas, muitas mulheres utilizam nicknames neutros, ou mesmo masculinos. Algumas até usam transformadores de voz. Sem contar as que deixam de participar dos eventos ao vivo.

Visando o combate dessa situação, foi criada, então, a campanha #MyGameMyName. Trata-se de um movimento que convidou Youtubers para jogar com nicks femininos. E o resultado foi impressionante: o assédio é instantâneo.

A ideia é divulgar os vídeos para que mais mulheres possam se sentir à vontade em um espaço que também é delas. Além de criar um ambiente com mais respeito e igualdade. 

“Santininha” e “Fly”, palestrantes do evento e jogadoras profissionais de CS:GO, também registraram a importância da criação de competições com etapas voltadas exclusivamente para o público feminino. 

Porque são medidas assim que podem encorajar mais mulheres a participar. Dessa forma, elas terão um ambiente em que possam se sentir confortável. E mais: sem terem de se preocupar com as distrações desagradáveis dos comentários “extra-jogo”.

“E-Minas” no mercado de trabalho

Uma das expectadoras do evento, Amanda Santos, faz parte do rol de meninas que tiveram uma primeira experiência no mercado traumática. Graduada em jornalismo, com um trabalho de conclusão de curso sobre as editorias de games de portais como o ESPN e SporTV, ela não pretendia continuar no mundo do E-Sport.

Entretanto, graças ao incentivo recebido da professora orientadora e dos colegas, conseguiu uma parceria para publicar seus textos sobre o tema. Foi quando passou por uma situação notavelmente desagradável. Seu conteúdo foi publicado sob a autoria de um homem. Ou seja, não quiseram publicar o conteúdo com o nome de uma mulher para não perder visibilidade.

Apesar disso, ela não desistiu. Hoje, escreve para sites como NerdSite, GameHall, GameTrip e Garotas Nerds. Mas nem todas as mulheres são assim. Amanda acredita que, por crescer em uma sociedade machista, muitas não acreditam serem capazes de chegar no topo fazendo o que gostam.

“Apesar de existirem eventos que favoreçam a participação feminina, ainda falta apoio. Seja por parte da família, seja por parte das empresas”, diz ela. 

Isso ocorre mesmo com as que já estão inseridas no mercado de trabalho ou são pró-players (jogadoras profissionais). Visto que a família não reconhece a área como uma profissão séria. Ou ainda está engessada no discurso do “não é coisa de menina”. 

Em contrapartida, Amanda está animada. Porque, apesar de toda a dificuldade, eventos como o “∃-Minas” ajudam as mulheres cada vez mais a conquistar espaço e visibilidade. Eles ressaltam e discutem o que as mulheres enfrentam no mundo virtual.

Por fim, eventos com esse intuito, além do debate em si, ainda colaboram na formação de estratégias de combate a esse cenário. Isso tudo para que as mulheres possam cada vez mais participar, ganhar espaço e reconhecimento nesse universo. Então, força minas!

 

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