Alunos e especialistas apontam saúde, vida social e rendimento acadêmico como ganhos da prática

Por Cesar Isoldi e Rafal Bezerra | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]Q[/dropcap]uando se pensa na prática esportiva, inevitavelmente vem à nossa mente a ideia de saúde. Diariamente ouvimos que é necessário que se pratique esportes para manter uma vida saudável, manter a forma e até dormir melhor. No caso do esporte universitário, outras coisas também atraem o interesse dos alunos, como defender as cores da sua faculdade e criar laços com outras pessoas. Mas e o rendimento acadêmico? É possível conciliar treinos e estudos?

Patrícia Deluca é atleta do basquete feminino da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP. Ela conta que sempre amou o esporte e o pratica desde os 8 anos. O fato de sua irmã, estudante da Poli, fazer parte dos times de basquete e futsal, fizeram com que ela conhecesse e se animasse ainda mais. Ao entrar na faculdade, porém, sua vontade de fazer parte desse meio aumentou. “A vontade de jogar cresceu ainda mais ao conhecer a faculdade e entender o que representa poder defendê-la dentro de quadra”, diz.

De fato, ela acredita que esse seja o maior motivo que leva as pessoas a buscarem os times de sua faculdade. “Um atleta vive a faculdade de modo muito diferente: tem orgulho das cores que defende e da camisa que veste”, diz Patrícia, que também acredita que os laços que os atletas e treinadores criam uns com os outros é o que faz com que as pessoas continuem no time, embora praticar uma atividade física e gostar de competir também sejam motivos relevantes. “As pessoas que fazem parte desse universo, jogadoras e técnicos, não são apenas colegas, mas um grupo que, sem muito esforço, pode-se chamar de ‘família’”, reafirma a atleta.

Sobre como conciliar os treinos com os estudos, ela explica que, no caso do Direito USP, como as aulas acontecem de manhã ou à noite e a maioria dos alunos trabalha à tarde, os treinos são sempre das 22h até meia noite. “O horário complica muito tanto para os alunos do diurno, que têm que levantar cedo no dia seguinte, quanto para os do noturno, que muitas vezes precisam perder aula para treinar”, diz, completando que os atletas também abrem mão, muitas vezes, de tempos para estudo para ir aos jogos no final de semana.

No entanto, ela pensa que, com um pouco de organização, é possível conciliar as duas coisas. “Ao fazer parte de um time, aprendemos a ter comprometimento e disciplina, o que acaba refletindo nas demais atividades”, acredita. Durante esses cinco anos em que joga pela São Francisco, raros foram os treinos que ela teve de faltar por causa de provas ou trabalhos. “Não acho que fazer parte do time tenha afetado meu rendimento acadêmico de forma negativa”, afirma.

De fato, pesquisas recentes apontam uma melhora no rendimento acadêmico de crianças e adolescentes que praticam esporte. O Programa de Pós-graduação Interunidades em Nutrição Humana Aplicada (PRONUT), da USP, estabeleceu uma relação entre os gastos envolvidos em programas públicos de iniciação esportiva e uma consequente melhora no rendimento escolar de crianças e adolescentes (você pode obter maiores informações clicando aqui). Um levantamento estatístico realizado por estudantes de Educação Física da Universidade de Brasília (UnB), por sua vez, retrata a influência dos esportes no rendimento de estudantes de 12 a 17 anos, em um colégio de Rondônia.

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Os laços criados entre os atletas é um dos benefícios apontados. Fonte:Ricardo Garcia Kuba/Revista BEAT

De acordo com a professora Yara Maria de Carvalho, existem muitos fatores, além do esporte, que influenciam o entrosamento dos alunos recém-chegados. Especialista em Educação Física e Saúde Coletiva/Pública no departamento de Pedagogia da USP, Yara afirma que “seria interessante aproveitar o espaço e tempo do esporte universitário para integrar outras iniciativas, de caráter cultural e científico”, reconhecendo que, além do esporte, existem outros meios de aproveitar o espaço universitário.

Nesse aspecto, Soraia Chung Saura compartilha da opinião de Yara. Especialista em Lazer / Dimensões Antropológicas e Filosóficas do Movimento, a também professora afirma: “a participação dos alunos no esporte é muito importante no meio universitário. Além dos benefícios conhecidos oriundos da prática esportiva regular, certamente jogar é um fator de integração. Não só para novos alunos, como para alunos que já estão na universidade há mais tempo”. Soraia ainda reforça que, pela “disposição espacial de suas unidades”, o esporte (juntamente com as festas universitárias) acaba se tornando o principal meio de integração entre os estudantes. “Percebo que os alunos tem cada vez menos tempo livre para realizar atividades sem um determinado fim, sem uma utilidade. Participam de eventos se estes oferecem formação e certificado, se agregam pontos ao currículo. Isso deixa pouca margem para uma vivência universitária descompromissada, para uma experimentação sem maiores consequências, para o auto conhecimento. Festas e jogos são partes constituintes deste processo não utilitário, e que por si só agregam muito à vida do estudante”, explica.

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Entrosamento, saúde, rendimento acadêmico. O esporte vai além do lazer. Fonte: Ricardo Kuba/ Revista BEAT

Questionada sobre a influência das divulgações científicas para estimular práticas esportivas, Yara aproveita para apontar problemas no que diz respeito à pouca variedade de esportes acessíveis para a população. “O problema é que as opções de acesso para aqueles que não podem pagar pelo personal trainer, ou por uma academia são extremamente restritas. Isso significa que só pratica quem pode pagar por serviços e equipamentos. Outra questão diz respeito à qualidade do que se oferece para quem não tem condições econômicas de pagar”, afirma a professora. Yara também ressalva que as escolas, importantes para a iniciação esportiva do aluno, não exploram muitas modalidades. “São sempre as mesmas modalidades: futebol, basquetebol, vôlei e handebol, sendo que existem centenas de outras modalidades divertidas e interessantes, mas o profissional também tem pouco acesso ao que foge ao padrão e isso tem a ver com a formação dos profissionais”, afirma.

A bolsa de estudo para atletas costuma ser um assunto explorado em muitas discussões. Questionada se o sistema de bolsas pode promover um estilo de vida mais saudável para os estudantes, Yara diz “há aqueles que fazem esporte e ficam bem melhores, mas há outros que ficam tristes porque quando fazem alguma atividade são discriminados porque são considerados fora do peso, descoordenados, entre outras questões. E ainda há aqueles que ficaram doentes porque foram para o esporte (descuidado), ficaram com lesões, com problemas articulares, posturais, entre outros. Então, precisamos tomar cuidado com o que falamos e escrevemos a fim de não generalizar as experiências e o que podemos com as práticas corporais, de modo geral”.

Soraia, por sua vez, discorda que as bolsas de estudos possam promover qualidade de vida: “isso não é estímulo à pratica esportiva, uma vez que são poucos os alunos que apresentam o perfil ‘atleta’. Para promover um estilo de vida mais saudável entre os estudantes, são necessárias outras ações, mais abrangentes, digamos assim, como oferta e divulgação de atividades esportivas de diversos tipos, promoção de eventos, campeonatos, intra unidades, acessibilidade de espaço para a realização de atividades, etc”, justifica.

 


Yara Maria de Carvalho (professora – Educação Física e Saúde Coletiva / Saúde Pública – Pedagogia)

Soraia Chung Saura (professora – Lazer / Dimensões Antropológicas e Filosóficas do Movimento – EEFE)


 

 

Crédito foto de capa: Patrícia em jogo pela Sanfran (Arquivo/Patrícia Deluca)

 

 

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