Por Carina Brito e Gabriel de Campos | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]A[/dropcap] vida universitária é marcada por diversos aspectos, dentre os quais, indubitavelmente, um dos destaques é o esporte. Independente da modalidade escolhida, a emoção de representar a faculdade da qual se faz parte é um caminho gratificante a todos que o trilham. Aos atletas, o êxtase imerso na pressão e na responsabilidade de fazer o melhor, tanto pela camisa que se está vestindo, quanto pela torcida que, do lado de fora, grita por eles. Aos treinadores, porém, soma-se ao gozo da prática o início de um trajeto profissional. Treinar é trabalhar, e sua equipe é seu grande negócio.

Não é um negócio qualquer. Não se limita a acompanhar os times ou dar instruções durante os jogos, a tarefa do treinador se expande a outras estâncias, e seus esforços tem que começar já no início da temporada. Todo o processo de montagem de elenco, estabelecimento de padrões, táticos e técnicos, e de metas, vê nele sua figura central.

Cedo começa o trabalho, cedo, também, começam as dificuldade. A cada ano, novos desafios têm de ser vencidos para se obter o resultado esperado, e uma das maiores é a rotatividade dos times universitários. Todos os anos, atletas mais experientes se formam ou entram no mercado de trabalho e, consequentemente, param de integrar as equipes, quebrando assim o entrosamento construído ao longo de sua trajetória acadêmica. Finda-se um ciclo. A harmonia de jogadores que se conhecem e se entendem, e que já incorporaram as instruções de seu comandante se perde, e cabe a ele buscar alternativas para continuar uma jornada vitoriosa.

Uma grande dificuldade dos treinadores está em estabelecer um equilíbrio entre esses atletas que logo deixarão a equipe e os que acabaram de chegar, com pouca experiência e que passam por uma fase de adaptação. É preciso alcançar essa concordância e conseguir equiparar essas duas perspectivas para não comprometer o resultado final e se manter um conjunto ainda competitivo. Todo treinador tem cinco ou seis atletas mais velhos, de confiança, que se mesclam com os novatos. Esses veteranos, por já estarem habituados às exigências táticas e físicas do treinador, e por possuírem mais tempo de casa, acabam por efetivarem-se no time. Uma equipe apenas de calouros é utópica, e assim, passa a ser imprescindível o papel do técnico para driblar esse empecilho.

Em entrevista cedida, Alê Oliveira, comentarista dos canais ESPN e treinador universitário há 24 anos, falou sobre o processo de formação de um novo elenco a cada temporada: “Com três treinos por semana, sempre agregando mais de um aspecto de uma vez, ou seja, técnico-físico, ou técnico-tático, e assim por diante, em seis meses seu time já tem uma cara, mas para se ter um trabalho considerado completo, demora-se, pelo menos, um ano inteiro”.

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Alê Oliveira orientando durante partida. Fonte: Acervo pessoa.

A questão, porém, não se problematiza apenas no viés dos veteranos que  se vão, mas da imponderabilidade quanto aos calouros que chegam, e a  necessidade de atraí-los. “Se você der a sorte de chegar uma geração  completa, de mais ou menos seis jogadores do primeiro ano, com alguma  vivência esportiva fora da faculdade, ai você tem uma geração que pode  perdurar quatro anos com o time. Mas na maioria das vezes, você tem um  encaixe de um do primeiro ano, com um do quarto, um do segundo, isso  varia bastante e, em média, um time dura, no máximo, dois anos.”  completou Alê.

A abordagem de calouros nunca é tarefa simples, e dentre um leque de  fatores que a dificultam, dois se destacam para o comentarista: “O  primeiro problema é o da falta de comprometimento, muitos colocam o treino em segundo plano, trocando-o por festas ou outros compromissos; e o segundo é a mentalidade de achar que ele tem que ser titular, que ele tem cadeira cativa no time, e aí há a frustração. Acho que isso é o que mais atrapalha o técnico”.

Para o atleta Chu, jogador de vôlei da Química desde 2010, é cada vez mais comum os calouros entrarem na universidade despreparados e sem interesse em praticar esportes. Para atenuar os efeitos desse cenário, fica como papel dos veteranos fazer propaganda de seus times e incentivar os ingressantes a experimentar as modalidades. Acerca do tema, Alê ressalta a importância dos treinadores nesse processo de abordagem: “A atenção do treinador […] tem que ser igual pra todo mundo. Ele tem que ter esse cuidado de cativar e seduzir essa nova formação de jogadores. Quem pode jogar o próximo Juca? Essa vai ser minha base. Eu não vou mandar embora os caras que me serviram por três anos, mas vou dar mais espaço para aqueles que estarão aptos a jogar o próximo intercurso. Isso acaba sendo um estímulo para os novatos, e se eles entendem esse processo, passam a demonstrar maior interesse pelo time, o qual acaba, aos poucos, se renovando. A transição fica menos radical”.

Segundo Rafael Monzen, treinador de futsal feminino da EEFE (Escola de Educação Física e Esporte), o problema da rotatividade é inevitável. “A gente conversa ao longo do ano e sabemos quais meninas que vão se formar. Se for uma menina que vai fazer muita falta para o seu time, é preciso começar a pensar em alternativas”, afirma.

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Treinador de futsal feminino Rafael Monzem. Foto de Carina Brito.

Como forma de preparar melhor os atletas e evitar esse problema, surgiram os treinos em que apenas participam recém-ingressantes na universidade. Sobre eles, Rafael reconhece sua importância e diz que algumas atléticas já possuem esse costume há algum tempo. “É uma forma de passar coisas mais básicas para meninas que nunca viram e irem evoluindo aos poucos desde o início, até chegar num ponto em que ela consiga adquirir todo o conhecimento que a outra já teve”, diz Rafael.

O surgimento de ciclos é um processo natural e inevitável, algo ao qual os preparadores têm de estar sempre prevenidos. Treinos específicos, atrair os calouros, e ter a perspicácia de consolidar um time que mescle as duas frentes são estratégias que podem ser seguidas. Veteranos não devem sair, mas novatos precisam entrar, e o efeito da rotatividade, portanto, tem de ser atenuado para que a equipe continue competitiva e consiga manter o mesmo nível nos campeonatos dos anos seguintes.

 

Crédito foto de capa: Acervo pessoal
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