Por Cesar Isoldi | Jornalismo Júnior

 

[dropcap]A[/dropcap] análise de vídeos é uma ferramenta cada vez mais utilizada no esporte profissional. Conforme a tecnologia avança, mais equipes – de diferentes esportes – passam a contar com essa forma de treinamento, que permite analisar taticamente o adversário, corrigir falhas do time e ainda levantar dados estatísticos. O esporte universitário começou a usar essa ferramenta recentemente e, apesar de ainda ser algo nascente, alguns treinadores e jogadores já sentem os benefícios de utilizá-lo.

Muito se fala sobre a figura do treinador estudioso, aquele preocupado em analisar minuciosamente os adversários, que se dedica ao criar um plano de treinamento embasado pelo levantamento estatístico e que usa o vídeo para detectar também pontos positivos e negativos de cada atleta. Boa parte dessas análises são possíveis graças ao uso de vídeos que, com o avanço da tecnologia, ganha cada vez mais funcionalidades e importância.

Orlando Martes, técnico do handebol feminino da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, considera isso muito importante. “O fato de você conseguir mostrar uma imagem e ir parando, recortando a parte que você quer – tudo isso ajuda bastante, porque não fica só na sua fala, ajuda a sair um pouco do abstrato”, explica.

Um exemplo de uso desse tipo de tecnologia é a SuperLiga de Vôlei. Tiago Mizael, que já foi treinador de equipes de vôlei da USP, como a FAU e a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), e que hoje é treinador das categorias de base do SESI, acredita que ao se estudar o vídeo é possível traçar tendências da equipe adversária – como para qual direção um atleta ataca a maioria das bolas, ou qual o passador que tem mais dificuldade -, além de corrigir alguns erros da própria equipe. Os times também contam com pessoas especializadas em levantar dados estatísticos a partir desses vídeos. “Durante a partida essa análise também é feita simultaneamente e, se necessário, são feitas alterações de marcações e prioridades na hora”, destaca.

No caso das categorias de base, onde atua Tiago, ele ressalta que o principal uso que faz dessa tecnologia visa a melhora dos gestos do atleta. “Nós ainda encontramos grandes atletas em potencial chegando nas categorias mais altas com deficiências técnicas grandes, como braço ‘encolhido’ na hora do contato com a bola, por exemplo. Quanto mais demoramos para corrigir, mais difícil fica, pois o atleta se acostuma muito a fazer o gesto daquela maneira”, explica.

Além do uso de vídeos, Tiago se usa de outro método semelhante: a fotografia. Ele explica que, quando o movimento é muito complexo – a exemplo do ataque – ele prefere programar sua câmera para tirar 120 fotos por segundo, pois assim pode mostrar o passo a passo e corrigir o que for necessário.

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Felipão analisa vídeos durante a Copa do Mundo (Fonte: Divulgação/CBF)

No caso do esporte universitário, essa é uma tendência que vem aparecendo nos últimos anos e ainda não conta com toda essa complexidade do alto rendimento. Orlando, da FAU, acredita que no handebol isso vem evoluindo bastante, embora ainda possa ser melhorado. Ele destaca dois problemas: um deles é o fato de muitos treinadores usarem o vídeo apenas como substitutivo e não o colocarem dentro de um planejamento. “Às vezes, os técnicos acabam usando só em dia de chuva ou em dias em que não vão ter quadra, enquanto isso poderia ter uma importância extrema para melhorar a qualidade dos treinos”, critica.

Outro problema encontrado pelo treinador é que, muitas vezes, os vídeos são usados sem uma edição prévia. Ele acredita que isso se dê pela falta de tempo, mas alerta que a qualidade pode ser diminuída. “Quando você mostra o jogo inteiro, você acaba perdendo muito tempo e as atenções vão oscilando demais, mas, editando, você consegue enxugar, deixar mais definido o que vai ser mostrado, e até mostrar outras pessoas num nível melhor fazendo aquela mesma jogada”, diz.

Mario Ducatti, jogador do futsal da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, também vê benefícios no uso dos vídeos. Ele conta que o novo treinador contratado pelo time faz uso dessa tecnologia e, desde então, o time vem apresentado melhoras. “O futsal da FFLCH sempre foi meio inconstante, e desde que contratamos ele, a gente vem numa ascendente. Eu vejo que o time vem evoluindo tecnicamente e taticamente, e acho que essa é uma das armas que vem ajudando nisso”, afirma.

Tiago Mizael acredita que os vídeos devem ser, sim, utilizados pelos treinadores de categorias universitárias, mas faz uma ressalva: ele acredita que, ao se limitar à tecnologia, o treinador não desenvolve inteiramente sua capacidade de análise do jogo. “Por levar em conta que, na maioria dos times universitarios, os técnicos estão começando a carreira e ainda estão aprendendo, creio que a utilização dessa tecnologia não deva ser feita totalmente. Os técnicos devem se permitir analisar o jogo, olhar para o lado da quadra adversária, passagem por passagem, tentar perceber quando seus atletas não estão indo bem e fazer as substituições em cima disso, porque, assim, estimulam sua capacidade de leitura tática, a sua memória de curto e longo prazo e também sua capacidade de passar todas essas informações pros atletas de forma didática e simplificada”, ressalta.

 

Crédito foto de capa: Reprodução/SESI

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